Nomadismo carcerário

A ideia mais comum sobre o mundo carcerário é a de um sedentarismo extremo ao jeito do Conde de Monte Cristo: anos e anos numha cela com a que o preso remata mimetizando-se, da que conhece todas as figuras e caras que albergam as manchas das paredes. Nada mais longe da realidade. Como um estudante Erasmus adicto aos voos low-cost, os presos estám submetidos ao imperativo da mobilidade. Sobretodo nos últimos anos, as estratégias de erosom do preso passam cada vez mais pola mobilizaçom contínua. Os prisioneiros políticos, classificados como FIES 3, som constantemente mudados de cela ou de módulo, aproximadamente cada seis meses; quando nom som movidos de cárcere, sem nengum tipo de justificaçom legal. No meu caso, em menos de dous meses passei por duas celas em Soto del Real, quatro em Aranjuez, umha em Valdemoro, e duas em Topas (este último troco, voluntário, ao melhorar bastante as condiçons da cela).

Esta inestabilidade, aliás, justifica nos olhos dos carcereiros umhas condiçons higiénicas e de instalaçons deploráveis, numhas celas em que, dependendo do regime, se podem passar de 22 a 20 horas como mínimo. Ao estar sempre na provisoriedade, os desperfeitos nom se arranjam. “É que nom funciona o interruptor da luz”, “Dá igual, total só vas estar aqui dous dias”. Dous dias com a luz acesa a todas horas. O mesmo passa quando nom há água quente, nom há cadeira, a água sai da bilha com ferrugem, a mesa está cheia de merda, etc., etc. Indo-se acumulando desperfeitos que nunca se arranjam, degradando as condiçons de vida dos seus moradores.

Estes despejos carcerários som sempre “express”. A lei apenas obriga a que o preso seja avisado do seu translado na noite anterior à viagem. Isso se nom se ampara no “risco de fuga durante o translado”, com o qual o preso é avisado de madrugada com um sucinto “recoja sus cosas que se va usted de traslado”, sem saber tam sequer qual é o destino. Som as chamadas em gíria “kundas fantasma”.

Cada translado acarreta normalmente a perda ou deterioro de pertenças pessoais, o reinício de trâmites burocráticos, etc. Ao estar limitado o peso das pertenças que o preso pode levar grátis, ou bem regala muitas cousas, ou bem paga um preço desorbitado para que lhas levem à nossa casa. Os objectos retidos, se os quer recuperar, tenhem que ir ser recolhidos pola família a umha cadeia que está amiúde a centos de quilómetros. Os problemas habituais das mudanças fora da cadeia, convertidos em quotidianidade.

Trata-se, enfim da mesma obrigaçom de circulaçom contínua que o capitalismo impom na sociedade, a umha velocidade tal que os laços, os símbolos, os abraços, as solidariedades, os significados e o arreigo, se fam impossíveis. Zizek citava um filósofo, do que nom recordo o nome, que punha como exemplo de “acumulaçom de substância” as constantes esperas dos cidadaos da RDA, no hospital, na estaçom do trem, nas lojas… A cadeia programa o desarreigo, evitando a formaçom de coágulos identitários. Neste macabro laboratório social, constrói-se o indivíduo que o capitalismo quer fazer crer natural: desarreigado, atomizado. Assim o modelo de pessoa da cárcere é o indivíduo sem laços, mas o modelo de pessoa do capitalismo é o encarcerado.

“É que para vós todas as celas som iguais, mas para nós som as nossas casas”, respondia-lhe um companheiro a umha funcionária que pretendia resolver um problema através da mudança de cela. Como em toda relaçom de dominaçom, o dominado é reduzido a objecto, polo que a sua localizaçom nom é um problema de hábitat senom de classificaçom e colocaçom. Do mesmo jeito, as mudanças de horário e polo tanto de rutinas -dos que o translado som o exemplo mais extremo-, som transmitidas perante as queixas dos presos com um “que más te da, si total no tienes nada que hacer”. Eis outro dos pontos chave da erosom carcerária: a ditadura do tempo abstracto.

Carlos Calvo Varela. Centro Penitenciario de Topas, 20 novembro 2012

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