Silêncio e poder. Música e barbárie

“O silêncio –di Saramago- é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada baixo a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras”. Do mesmo jeito que conforme se invoca desaparece, o silêncio é o complemento imprescindível para que a palavra ou a música seja possível. Nos cárceres atinge todo o seu significado aquela frase que abrolha cada vez mais nas ruas de Compostela e Lisboa: “Espanhóis, respeitem o silêncio galego/português”. Mal-estar partilhado por outros estrangeiros, sobretodo os das repúblicas ex–socialistas.

Os dominantes imponhem sempre o silêncio, desde o “cala mulher, que ti disto nom entendes” até a censura lingüística; ao mesmo tempo que consideram ruidosos os dominados: os índios som buliciosos, as mulheres berronas e as galegas “falam bruto”.  “Observe-se –indica Joseba Sarrionandia- o duplo sentido que possui a palavra ‘algarabía’ em castelhano: ‘lengua árabe’ e ‘galimatías’, ‘bulla’, ‘lío’, ‘confusión’. Por isso os ilustrados espanhóis qualificam o éuscaro de “algarabía”. A palavra ‘bárbaro’ e a sua equivalente árabe, ‘berbere’, derivam do remedo do jeito de falar dos estrangeiros: “blá blá blá”. O selvagem nom fala, fai ruído.

Se antes governava a ditadura do silêncio: a proibiçom da palavra; agora rege o império do ruído: a proibiçom do significado. Por isso os zapatistas se rebelam, “para que a palavra nom se perda entre o ruído”, porque “o governo tem o dinheiro e o poder para que haja muito ruído de paz e o som de guerra nom se escuite”. Várias culturas indígenas tenhem o costume de erguer no centro da aldeia umha cabana chamada Casa da Palavra, umha ágora, um parêntese entre o ruído em que poder falar. A emissom 24 horas, o bombardeio informativo, o tsunami de palavras, o alto-falante omnipresente –tanto numha carreira popular como na sala de um velório-, destruírom todas as Casas da Palavra. Se desligássemos a música, a desolaçom que povoa as discotecas ficaria despida, e a gente nos metros a soas com o seu próprio vazio. No mesmo movimento no que destruírom a música do silêncio vendem-nos enlatadas as sinfonias dos bosques e fervenças. No mesmo gesto com o que Duchamps meteu o urinário numha exposiçom de arte, John Cage compujo o seu 4’33’’,  quatro minutos e trinta e três segundos de parêntese, de silêncio, de “terra negra e fértil, o húmus do ser”. Com Karl Kraus, “o que tenha algo a dizer que dê um passo à frente e cale”. Para que onde há deserto haja terra.

Mas nom só se oprime considerando ruído à dominada, ás vezes fai-se reduzindo a palavra a música: a “voz sedosa” da mulher, o galego “lírico” que “parece que canta cuando habla”. A música, como tantas outras dimensons culturais, foi cindida do resto da vida durante a Modernidade. Esquecemos que era umha atividade total, em que o aspeto estético nom se podia discernir do lúdico, do relacional, do físico ou do religioso. Os pigmeus do Congo convertem os remansos dos rios em tambores de água; na cultura popular galega a música adjetiva e acompanha as facetas e tarefas da vida: cançons de arrolar, cançons dos fiadeiros… Até que se operou o que Bourdieu chama “divórcio intelectualista”, entre o que os poderosos consideram atividades inferiores de corpo, e as superiores do intelecto. No caso da música, evidenciado no processo de separaçom a respeito da dança que assinala Max Weber.

Quando os EUA pugérom o regime talibám no ponto de mira, o jogo mediático de cobertura falava de um governo que proibia a música. Mas nom fazia falta ir a Cabul. No cárcere de Topas vendem-nos leitores de CD, mas nom nos deixan comprar música. Ao perguntar-lhe ao Departamento de Comunicaçons da prisom a razom de que nom me entregassem uns CD’s de música –Zënzar, Seu Jorge e John Coltrane- que me meteu a família no pacote, respondérom-me com umha consigna de guerra:  “Los CD’s de música NO PASAN”.

Carlos Calvo Varela. Cárcere de Topas, 29 de janeiro de 2013

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