As palavras afiadas

Há palavras afiadas como cuitelos. As palavras afiadas nas maos da maquinária do estado podem recortar a realidade, construir legitimidade, reter e amedonhar. Terrorismo é umha palavra afiada como um cuitelo. No estado espanhol o braço que a empunha e que decide a sua aplicaçom chama-se Audiencia Nacional. Com apenas umha palavra, este tribunal soberano sem equivalente na Europa, pode desencadear umha maquinária repressiva à margem do estado de direito.

Cárcere de Topas

Carlos Calvo Varela foi detido em Vigo o 5 de setembro de 2012. Acusa-no de possessom de explosivos e de pertença à bretemosa e indemonstrável organizaçom Resistência Galega. A Audiencia Nacional deixou cair sobre Calvo o elenco habitual de palavras afiadas e aplicou-se-lhe a  lei antiterrorista. Isto quer dizer que um cidadao legalmente inocente foi isolado em regime de incomunicaçom sem contacto com advogados ou familiares, posteriormente encarcerado num módulo de isolamento numha prisom deliberadamente afastada do seu lugar de residência onde há ter que aguardar até quatro anos a celebraçom dum juízo que determine a sua culpabilidade ou inocência.

O caso levou o Carlos Taibo a perguntar-se pola perigosa e recorrente sincronizaçom de três modulaçons do poder.: “primeira, a invençom cristalina, decote estrambótica, de presumíveis condutas delitivas. Segunda, a demonizaçom pública dessas condutas inventadas. Terceira, (…) a repressom directa dos protagonistas.” Este processo requer da acçom sincronizada de muitos agentes. As palavras nom se afiam de seu, e velaqui que certa imprensa joga um papel crucial em casos como o de Calvo: serve como exemplo esta nova publicada no ABC em que a capacidade de tomar especulaçons por certezas e acirrar as vísceras do leitor (símiles com Al Qaida incluídos) som dificilmente compatíveis co jornalismo rigoroso.

Paga a pena deter-se a ler as cartas que Calvo escreve desde a prisom de Topas. As suas palavras nom só permitem acceder a umha voz culta e lúcida mas também ao testemunho directo de quem está submetido a um estado de excepcom. Um estado em que a relaçom entre as causas e os efeitos e a mesma lógica democrática estoupam em anacos -algo muito parecido a esta situaçom kafkiana relatada numha das suas cartas: <<Por sorte, alguns tivemos bons Mestres deste reino livre de lógica, como aquele carcereiro de Soto del Real que ao perguntar-lhe como se podia conseguir papel a lápis responde: “colha lápis e anote num papel para o economato que quer comprar papel e lápis”.>>

Paulo La Parra Pérez. Artigo publicado no diário digital 50X7.com

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