Yilliqiyya, Galiza através dos árabes

(Escrevim-no porque é o que me gostaria ter sabido para contar-lhe ao Javi, “O Rubenzinho do Magreb”, quando coindidimos en Soto del Real.
 
“Javi é um de tantos  moços que intentou chegar a Europa arriscando a sua vida e rematou no cárcere: a mesma Espanha que nom o quijo para trabalhar quere-o para tê-lo preso. Ele aprendeu a jogar à pelota basca com Eneko, um preso político basco recém chegado ao ‘búnker’ madrilenho, e Javi ensinou-nos aos galegos. Falava saudoso de levar-nos à sua  aldeia no Atlas (“duas horas de jeep e umha de cavalo”) que tanto botava de menos: “despertar para ver sair o dia, almoçar chá com hortelá e iogurte… andar de cavalo e falar ‘com a gente antiga’ da aldeia”. Estranhava-se de que a nossa língua nom tivesse umha palavra específica para o odor da terra durante as chuvas de verao, nas gostava-lhe o galego. Tem um primo em Samil, que trabalha na procura de prata viva dos mares. Javi falava dos grandes peixes que colhia o seu primo, e como todos os africanos, insistia-nos en que a Galiza é mui diferente de Espanha, porque “é menos racista”. Em Marrocos tinha familiares presos pola política. Explicava-nos as diferenças políticas no mundo mussulmano: “há os que se dim islám mas nom som o islám ‘origianl’, o islám ‘original’ é o de Hamas. É como aquí, que o PSOE di que é esquerda mas nom é a esquerda ‘original’. E voltaba à sua aldeia, falar dos tesouros enterrados polos árabes e o cuidado com o que havia que desenterrá-los, e eu falei-lhe dos tesouros dos mouros na nossa terra, o ‘Ciprianilho’ e o cuidado com o que havia que desenterrá-los. Este Cunqueiro do Magreb tinha umha permeabilidade cara a vida que a modernidade nos arrebatou. Até que conforme havia mais confiança, nos contava a ‘sua’ versom da história espanhola, a origem mussulmana dos nomes das suas cidades, arquitectura… E eu contei-lhe que durante séculos a península foi Galiza e Al-Ándalus. A nós transladárom-nos enseguida de prisom, e o último que se soubo de Javi é que morrera o seu pai e nom lle deixaram ir ao enterro.
Outro cunqueiriano mandou-me os estudos de Anselmo López Carreira sobre o Reino de Galiza durante a Idade Média para poder seguir a conversar com o Javi, que algum dia voltará atravessar o estreito, viajar duas horas de jeep e umha de cavalo, almorçar chá e iogurte, e falar com a gente antiga de que os galegos nom sabem como se chama o cheiro da terra quando chove no verao, mas de fôrom bons vizinhos durante séculos e nos cárceres espanhois, que tenhen prata viva no mar e respeitam os tesouros dos antepassados, porque saben distinguir o original do falso”).
lalibela

Noutrora culturas no seu máximo esplendor e em contato íntimo durante séculos, agora o mundo galego e árabe minguárom até ficarem confinados nos estremos da metrópole. Na Galiza, a nossa língua apenas é empregada em 6% dos infantários das cidades; en Ceuta, o governo español proibe o uso nas escolas do dariya, o árabe ceutí. A essa cunha ‘física’ que é o Estado español há que somar a cunha ‘mental’ da sua historiografía: o mito de umha guerra religiosa, umha impermeabilidade total e combates a norte durante séculos, que nos impede ver o que tivo de relaçom enriquecedora e o que uns e outros fomos.

GALIZA E ESPANHA, OU YALLIQIYA E AL-ISHBÁM

Entre os séculos VIII e XI a configuraçom geopolítica da península foi bastante estável e continuista da época anterior: ao Norte, o mundo cristao englobado no nome de Galiza, ‘Yilliqiyya’ en  árabe –trascrita também como Jalikiah, Chaliquia, Djalikyah, etc…-, ao Sul o mundo mussulmano chamado Espanha, “Spania”,  ou “Al-Ishbám”. Com estes nomes aparecem os dous reinos nas crónicas árabes e europeias. Nom se trataba de umba estrita frontera religiosa –os bispos espanhóis, por exemplo, continuarom a participar nos Concíllios- nem tampouco impermeável. Por outra banda, a variaçom feudal de umha cidade, a un rei galego ou andalus, tampouco afetava á sua identidade geopolítica (chamemos-lhe assim a falta de melhor expressom). Vejamos agora os terrotórios da Galiza e Espanha através das crónicas árabes.

Começamos por Ibn Haiám, historiador de começos do s. X e autor da Crónica do Califa Abderrahman III An-Nasir entre os anos 912 e 942. Nela descreve os limites do reino. Polo Sul: “o extremo de Yilliqiyya chega a Coimbra, perto da terra musulmana”; polo Leste, a primeria populaçom cristiá importante era “Clúnia, primeiro confin de Yilliqiyya”. Haiám distingue, aliás, umha Galiza nuclear: “Galisiyya”, e outra ‘estensa’: Yilliqiyya (“no ocidente do país, en Galisiyya, estremo de Yilliqiyya”).

Outra obra importante do s. X é a Configuraçom do mundo do geógrafo Ibn Hawkal. Nela descreve a frontera de Espanha, que “corre apartir dos arredores do país da Galiza, através da provincia de Santarém, Lisboa”. “A frontera septentrional estende-se desde a regiom de Sintra, passa por Samora”. No “rio Tejo, o no seu curso, há mais de umha cidade que forma parte da Galiza; este rio atravessa a Galiza entre Almada e Lisboa, do dominio de Espanha”. Sinala “a regiom dos bascos, que son cristiaos da Galiza”, e recorda que “Leon é a residencia do seu soberano”. Por último, “as praças de defesa das marcas galegas con Mérida, Natza, Guadalupe e Toledo, frente às duas cidades galegas de Samora e Leon”.

No s. XI o geógrafo sevilhano Al-Bakri matiza mais a dintinçom de Ibn Haiám entre Galisiyya e Yalliqiyya, e sinala que a Galiza ‘estensa’ está formada pola propia Galiza ‘nuclear’, Portugal, Astúrias e Castela. Ainda, a meados do s. XII, Idrisi si na sua Geografia que “som de Galiza: Segóvia, Leom, Sória, Burgos, Náxera, Logronho, Estelha, Ponte da Rainha, Pamplonoa (…) Santilhana (…) e Baiona”.

A EQUIVOCAÇOM DA REALIDADE E A CORREÇOM DO HISTORIADOR

O interesse ideológico com o que a historiografía espnahola olha o passado atinge tal ofuscaçom que quando os documentos nom coincidem com os seus desejos só contemplam a opçom de que os dados sejam incorretos, errados, ou diretamente falsificados. Mais no caso no que estamos a analizar: que a sua Espanha cristiá se chamasse Galiza, e que o reino “infiel” fosse Espanha, simplesmente nom fai parte do seu espaço dos possíveis, é un ‘aliem’. O César Caramês explicava mui bem este fenómeno através da cena do filme O Planeta dos Símios, quando a estátua da liberdade emergia da Praia; ou quando Manuel Fraga diante do seu chalet destuido declarava aquilo de “isto nom pode ser obra de galegos”. Sem nengunha pretensom de exaustividade, apresentamos aquí alguns dos malabarismos da historiografía española para adequar a realidade ao desejo.

En 1850, na sua Historia General de España, M. Lafuente desenha um mapa sobre a distribuiçom terroritorial da península durante o Califato de Córdova (756-1030). No reino cristiao coloca em versaletes –como nos documentos “bilingües”, sempre somos versaletes- o nome de Jalikiah, e em letras mais grandes traduze-o por “Reino de Leom” sem maior vergonha.

Em 1865 Murguia denuncia que o historiador español Morayta traduzia a “Djalikyah” (Galiza) do cronista Al-Razi por “Cantábria”. Dous anos despois, F. J. Simonet na sua Historia de los mozárabes de España, traduze “Chaliquia” por “Reino de Astúrias e Galiza”, optando por umha técnica menos brusca que Morayta: a de diluir.

Em 1946 Menéndez Pelayo, ao  ler no Cronicom Arianense –que  nom é árabe- como ao Concílio de Francfort de 794 acodem bispos de “Itália, Gótia, Aquitánia e a “Gália”, nom “Galiza”, embora a Gália fosse, precisamente, Gótia e Aquitánia. O mesmo deveu pensar em 1991 Linage Conde quando repassou umhas cartas de 1088 do papa Urbano II, onde diferencia as “Hispaniis et Gallics regionibus” e se dirige a elas, por separado. Novamente, o equivoado nom é o historiador senon o papa que nom conhece os seus própios territórios.

En 1981 Viguera, Corriente e Lacara, editam umha versom em español da Crónica de Ibn Haiám, traduzindo sistematicamente no texto “Galiza” (Yilliqiyya) e “galegos” por “Leom” e “leonês”: Já no apéndice toponímico sinalam, evitando a palabra tabu, que Yilliqiyya é o “territorio cristiao nesse tempo capitalizado em Leom”. Presos dos seus pré-conceitos, quando a crónica data um acontecimento dm 914, eles pensam que tivo que ser antes da coroaçom de Ordonho II como rei de Leom, porque o árabe lhe chama “rei da Galiza”.

Em 1992 o audaz Carlos Baliñas di preferir nom empregar as fontes árabes, a melhores da época, “polo carácter distorcedor das suas conceçons geográficas”. Em 1997 Rodríguez Fernández insiste na traduçom libre: “Yilliqiyya, como os árabes chamavam (…) ao territorio de Leom: Já em 2002, P. de Gayagos onde Al-Maccari fala de “Ardhu-l-jalalkah” (“o país dos galegos”), ele entende “Galiza e Astúrias”.

DOUS MITOS FUNDACIONAIS: “PELAYO” E O “CID CAMPEADOR”

Poucos mitos fundacionais espanhois se livram de que sobre eles para a suspeita de umha bastara origen galega: Cristóvao Colombo, Miguel de Cervantes… e na época que nos ocupa Pelágio e o Cid.

Considera-se que foi Sánchez Albornoz o criador do mito moderno de Palágio, “fundador de Espanha” e iniciador da heroica Reconquista desde a montanha de Covadonga. O material desde o que se elaborou é pouco fiável e contraditório entre si. As crónicas árabes também son difusas, mas há umha questom sobre o que nom mostram equívocos.

O Ahkbar Machmua, elaborado no s. XI e botando mao en varias ocasions da tradiçom oral, situa o episódio na Galiza. O exército mussulmano “fijo-se dono da Galiza (…) se se excetua a serra na que s refugiava (…) um rei chamado Belai (Pelágio) (…) e fôrom assim diminuidos até ficarem reduzidos a 30 homens (…) e deixárom-nos dizendo: ‘trinta homens, que podem importar?’”. O cronista Al-Razi situa a cena “in the land of Galicia”. As crónicas posteriores mantenhem a versom. Os Fatho al-Andalusi dim que “um infiel (…) chamado Balaya (Pelágio) sublevou-se em terra de Galiza”. Já no s. XVII, Al-Maccari di, apoiando-se en Ibn Haiám: “the first Christian who (…) collected his countrymen round him and showed symptoms of resistance, was a barbarian named Beláy (Pelágio), from among the people of Ashturish (Astúrias) in Galicia”.

Por sua parte, o Cid Campeador, sublimado como pai de patria espanhola polo sistema escolar franquista, e assimilado á imagen de Charlton Heston –a ‘superproduçom’ cinematrográfica do sentimento nacional- é chamado por Bem Bassam no s. XII “perro galego”, por muito que Menéndez Pidal veja nele um “campeador de la fe y de la independencia nacional” e um “héroe de la nación española”.

A VIDA COMUM

Com certeza, as relaçons entre a Galiza e Espanha nom fôrom só bélicas. O historiador Jacques Le Goff tem recomendado estudar o mundo árabe medieval mais como umha ponte entre Ocidente e Oriente antes de que um muro. No caso que nos ocupa, os olhos modernos unírom um enfrentamento entre dous blocos nolíticos onde havia umha realidade muito mais complexa, de alianças entre elites para acabar com inimigos internos, exilios, diplomacia, comercio, etc. Por citar alguns exemplos, em 833 Afonso II entrega-lhe a Mahmut, rebelde contra Abderramán II, um territorio na Galiza –pensou-se que em Samos- para que se refúgie, rematando afinal enfrentados entre si: No mesmo século, Afonso III mantém excelentes relaçons com o senhor de Mérida Ibn Maruám, alcumado al-Yiliqui (“o Galego”); também com a poderosa familia saragosana de Bam Casi, e establece alianças com Omar ibn Hafsum. Em Santarém, no ano 900, pagava-se em ‘sólidos galicanos’ e en 996 após asinar a paz com Vermudo, Almançor casa com umha filha do rei galego. Também nessa época, moravam em Cela Nova persoas chamadas “Habze” ou “Abdelha”. Como vemos, a impermeabilidade é um mito.

Em Compostela nom era estranha a presença de mussulmanos. Em 850 Abderramán envía o poeta Algazel a umha instancia na cidade galega, onde é colmado de presentes durante dous meses. Non s. XII, o emir almorávide Ali ben Iúsif envía embaixadas á Galiza para falar con Urraca. Ao parecer estas relaçons diplomáticas eran bastante amigáveis. Também havia, claro, espions, como os que em 972 regressam a Córdova após “rastrejar noticias dos normandos” de Galiza.

Há também testemunhas de um e outro reino criticando os seus compatriotas por adoptar costumes e vestimenta do país vizinho. A este respeito paga a pena sinalar as estátuas de reis galegos levadas entre o s. XIII e XV no alcáçar de Segóvia, ataviados com roupas mussulmanas. Por desgraça um incêndio destuiu-nas en 1862, mas conservam-se reproduçons en aquarela.

E para rematar, sublinhamos o apontamento de Anselmo López Carreira, sobre o facto de que “a influencia lírica andalusí nom está suficientemente acalarada” na lírica galega. Rodrígues Lope nom desbota umha origen arábica da mesma, e Tavani reconhece certas relaçons com umha tradiçom maçárabe anterior.

Carlos C. Varela. Cárcere de Topas, 31 de janeiro de 2013

(Este artigo publicouse no Novas da Galiza, 15 março 2013)

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2 comentarios en “Yilliqiyya, Galiza através dos árabes

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