O homem que se cria morto

Esta manhá quando caminhávamos polo pátio, o Andoni, um preso político de Tolosa que está a estudar psicologia, explicava-me o último que lera: umha investigaçom sobre os estereótipos negativos da velhice, que após um amplo estudo estatístico, conclui que os velhos que assumem esses estereótipos (que som um estorbo, que já nom valem para nada, que nom estám em idade de brincar ou dedicar-se ao amor, etcétera) vivem de média uns sete anos menos que os que que os rejeitam. “Tanto se crês que podes como se crês que nom podes, estás no certo”, sentenciava Henry Ford quando se dedicava à ontopraxeologia.

Ainda estávamos a remoer nestas metafísicas práticas quando apareceu o Ali, um preso social Kazajo. Umha enorme chaqueta de pana, jersey feito a mao com os desenhos e cores tradicionais do seu país, e botas de montanha, dam-lhe um aspeto de pessoa extraordinária. Sempre com o tabuleiro de xadrez baixo o braço, hoje nom vinha à procura de vítimas dos seus xaques, senom com ganas de botar uns contos. Falou-nos de cómo no seu país, os nenos que iam tornar as vacas nos prados brincavam entre restos de satélites da URSS, que tinha no país as suas bases aeroespaciais. Os camponenses viam tal despregamento tecnológico como umha barbárie: “a cada pouco morria algum cosmonauta nas suas missons. Normal. Se Deus já fijo a Terra para nós, e o Céu para ele, que vam procurar ali?”. Os camponeses do Kazajistám som sábios como o nosso Guerra da Cal, que insistia em que “a civilizaçom nom é pôr o homem na Lua, senom pôr o homem no lugar de outro homem”.

Lançamo-nos com os contos, e o basco contou um da tradiçom russa, que emprega o psicoterapeuta argentino Jorge Bucay  para explicar-lhe aos pessimistas os perfigos das profecias auto-cumpridas. Chama-se “O homem que se cria morto”, e di assim:

Havia umha vez um homem mui apreensivo e temeroso da morte. Num dia de especial loucura de-lhe por pensar que estava morto, e mesmo lho comentou à mulher. Ela, claro, escachou com a risa, e dixo-lhe que se tocasse na frente, nos pés e nas maos.

– Vés parvinho? Estám mornas. Se estivesses morto estariam frias.

Semanas depois colhei a burra e foi ao monte cortar lenha. Quando se pujo maos à obra nevava já bastante. Num descanso, sem pensá-lo, passou a mao pola testa. Estava fria. Acordou-se ao momento do que lhe dixera a lmulher e tirou luvas, botas e carpins e comprovou que tinha as maos e os pés como o gelo.

– Nom há dúvida: chegou o meu dia.

‘Dando-se conta’ de que estava morto, razoou que nom era boa cousa para um cadáver cortar lenha, e deitou-se no chao com os olhos pechados e os braços cruzados piadosamente sobre o peito.

Ao pouco apareceu umha jauria de cans bravos, que se acercavam às alforjas do burro onde guardava o almorço. Ao nom achar ameaça, os cans decidírom-se e dérom conta da comida. O homem pensou ‘Ah! Sorte que tenhem! Se nom estivesse morto dava-lhes umha boa tunda’.

Nom satisfeitos, os cans olhárom para a burra atada a um carvalho. A fácil presa botou a ornear aterrorizada. O homem, de nom estar morto, protegeria ao animal com paixom.

Após daram conta da burra, ainda rilhando nos ossos, os cans fixárom-se no homem deitado no chao. Achegárom-se a ele mui lentamente, de vagarinho, pois os homens som perigosos. Aos poucos os babejantes cánidos rodeárom-no.

– Parece que me vam comer. Deus que os fundou! Se nom estivesse morto rebentava-vos agora mesmo!

Os cans achegárom-se… e vendo a sua imobilidade comérom-no.

Subim à cela com a sensaçom de passar toda a manhá a falar da Galiza, e já nom lembrava se o psicoterapeuta se chamava Jorge Bucay ou Albert Memmi.

Carlos Calvo Varela. Valdemoro, 7 de março de 2013.

olga

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