De Monte Faro a Souto Maior. Romaria e naçom

“Fui eu, madre, en romaria

a Faro con meu amigo

e venho d’el namorada

por quanto falou comigo,

ca mi jurou que morria

por mi; tal ben mi queria!”

Johan de Requeixo

IMG-20130925-WA0000Mais um ano o PP escolheu o castelo de Souto Maior como cenário de arranque do curso político galego e espanhol, um acontecimento de grande densidade simbólica que nos servirá para umha análise mais ampla. E nom pola sua novidade, certamente, pois a volta triunfal à Terra por parte do gallego que lidera Espanha está bem presente na memoria recente. Muita gente lembra as chegadas de Franco à ‘capital de verao’, os actos de propaganda através de bem-vindas nas vilas e gente a saudar à beira das estradas; ou a participaçom do ditador em actos folclóricos, como em aquele no que rematou cantando o hino da “naçom de Breogán” para o temeroso abraio dos presentes. Depois viriam –era outra época- os “possados” em banhador de Fraga em Perbes ou Calvo-Sotelo na praia das Catedrais. O desporto, como espectáculo de massas, foi usado polos políticos do mesmo jeito que os emigrantes de Aviom usam as orquestras de mariachis: como dom à Terra natal e como símbolo de triunfo. Com Franco o Trofeio Teresa Herrera trazia à Corunha um pequeno Mundial de Clubes e lubricava a ‘fuga de talentos’ do futebol galego para o Real Madrid. Com Rajoy, apaixonado do ciclismo, ‘La Vuelta a España’ partiu da sua residência de verao.

O que perdeu o seu momento foi a romaria de Monte Faro, em peregrinaçom ao ‘advogoso’ dom Manuel. Com os indígenas já em fase final de extinçom, o novo PP pode poupar esse vulgarizante contacto com o povo; contacto para o que, aliás, já nom dispom de Mestres de cerimónia à altura. A inteligência daquele PPdeG definido congressualmente como “nacionalista moderado” foi a de saber tocar as molas em que se interpretava a antiga trama identitária, pré-moderna ou, se se prefer, pré-nacional. Em pleno centro da Galiza, desde a ermida da  Virgem de Faro dominam-se as quatro províncias, divisa-se tanto o Pico Sagro como o Courel e Ancares: “Nossa Senhora de Faro/ mui altinha se foi pôr…”. Proporciona, pois, essa “visom cartográfica” tam importante na construçom dumha comunidade imaginada, pola funçom icónica que lhe atribuí Benedict Anderson. No plano religioso, a romagem remonta-se à Idade Média como demonstra a cantiga de Johan de Requeixo, que à sua vez evoca o elemento erótico da romaria -durante muito tempo os romeiros dormiam no santuário- vivo até hoje: “Hei-de ir à Virgem do Faro, / hei-de levar-lhe umha vela, / hei-de buscar umha moça / que tenha boa merenda”. E, claro, a comensalidade festiva e identitária: polvo e carne ao caldeiro, com vinho e aguardente do país.

Além da forte identidade casa-aldeia-paróquia, e em menor medida comarca (também chamada “país”), a identidade supra-comarcal galega nom tinha muitos espaços nos que se construir. Havia consciência lingüística, étnica, e de formar parte de um território antiquíssimo denominado Reino de Galiza até 1833, mas nom muito mais (1). Nom tem nada de extraordinário, senom que era o normal num tempo no que a identidade nom era “nacional”: nos começos da Modernidade Eugen Weber é incapaz de encontrar, nesse paradigma nacional que começava a ser a França, labregos que se digam “franceses” ou que reconheçam falar algo assim como “o francês”; e a aprovaçom da Constituiçom de Cádis encerrou-se com aquele “agora só nos faltam os espanhóis”. Na passagem de soberanía real à nacional, as elites botam mao de elementos identitários fortes do antigo sistema para configurar a identidade desse novo sujeito, a naçom, e acometer a nacionalizaçom das massas. E um desses elementos que entra em jogo é o das romarias. Sinala Marcial Gondar que enquanto “Aragom e Catalunha tinham na Moreneta e na Virgem do Pilar dous master symbols que identificavam todo o país através desses santuários nacionais, Galiza nunca tivo um identificador étnico religioso –Santiago nunca actuou como tal senom todo o contrario- que cumprisse esse papel. O porquê radica no baixo grau de consciência de interdependência entre os seus membros e grupos que o povo galego tivo já desde o passado”. (2). Mas quiçá isso seja responder com a pergunta.

O que faltou realmente foi umha elite que capitalizasse simbolicamente as romarias (e outros elementos) que pudessem ter maior eficácia nacionalizadora pola sua popularidade (3), pola energia social que fossem capazes de mobilizar, de cara a um projecto nacional galego. Pois as elites galegas, para desgosto das forâneas, sim capitalizárom o Santiago Apóstolo para os seus interesses, cambiantes ao longo da história. Mesmo se pode dizer que foi umha capitalizaçom ou apropriaçom fundacional: a extensom dum reino cristao na península sob liderado galego. Ainda nos últimos séculos talvez nom caiba entender que há só um acto de symbolic piracy com o Apóstolo por parte do poder castelhano ou espanhol: nom será também que ainda tenhem que render certo tributo à matriz galega? Contra a versom de Santiago como “colonizador espanhol” a historiografia recolhe umha constante pugna: os intentos de deslocar à Virgem do Pilar o padroado de Espanha, de eliminar os votos de Santiago, etc. Com a irrupçom do protestantismo e o catolicismo em retrocesso em toda Europa, o Santiago volve brilhar como bastiom inexpugnável: só a Galiza conservaria a verdadeira fé, primeiro contra os mouros e agora contra os protestantes, e protegeria Europa do “caos de libertinagem”; “nom devemos ceder vantagem a naçom algumha neste particular, que me parece que dizendo galego basta para explicar”, escrevia um exaltado capelám do Condado de Ribadeu em 1799. (4). À vez, em Castela prodigam-se os ataques à Galiza, “Porque se avergüenza el Santo / de mostrar que está en Galicia”, di um anónimo. Mas há muitos:

“Oh, Santo Apóstol, qué discretos fueron

los que en oculta bóveda os metieron

Para que de esta tierra amparo fuereis

¡Sin que ella os viese ni que vos la viereis!”

Ou estoutro assinado polo Padre Cornejo:

“Hundiose la nave al ver

Que el Santo al Padrón llegó,

Que al ver la tierra temió

Que se había de volver”

“Que importa –responde Castelao- que a invençom do corpo do Apóstolo Santiago fosse umha manobra estratégica de Carlomagno para enquistar a invasom árabe, e que a nossa comunicaçom com Europa salvasse a Hespanha de ser um país africano! (…) mas em quanto se cerrou a Reconquista fomos aldrajados e repudiados” (5). Eis a textura específica da tomada de consciencia nacional galega: o sentimento de aldraje, origem e limite, à vez, dessa consciência. Como nom ver ecos em todo o Sempre en Galiza deste trechinho da Historia Compostellana? : “… Os aragoneses entregárom o Castelo à rainha. Ouh, quanta e que excelente glória militar proporcionou aos galegos este dia em que o Batalhador aragonês se retirou perante eles! Mas muito mais excelente e alegre foi quando a valorosa força da Galiza protegeu a Castela e aos seus cavaleiros do ataque dos inimigos e obrigou a entregar o Castelo do aragonês. Oh vergonha!; os castelhanos precisam forças alheias e som protegidos pola audácia dos galegos. Que será desses cobardes cavaleiros quando se marche o exército da Galiza, o seu escudo e proteçom?”. (6). O mesmo sentimento após a Francesada será chave para o renascer galego.

A questom foi-nos levando de cheio ao ‘giro copernicano’ que leva tempo reclamando Ernesto Vázquez Souza desde a historiografia militante –e do que, antes, Manuel Veiga deu um bom exemplo prático no seu O pacto galego na construcción de España-: entender a especificidade do conflito nacional galego, na longa duraçom, nom tanto como umha “carência” ou umha “falta”, senom mais bem como um excesso. Ou, ao jeito de Foucault, levar a atençom do meramente repressivo ao produtivo, ao que se pom em jogo. A historiografia galeguista, logicamente, centrou a focagem nas esquecidas elites galegas, mas só poderemos entender o conjunto atendendo também as gallegas. Atribui  Charles King a consolidaçom do projecto nacional moldavo ao desenvolvimento de certo espaço de poder cada vez mais atractivo: “Por que ser Presidente da Câmara de Chisinau, decorre a lógica, se podes ser presidente de Moldávia?”. Mas entom haveria que perguntar-se, som a mesma lógica, por que Canalejas, Dato, Portela Valladares, Casares Quiroga, Franco ou Rajoy… quereriam ser presidentes de Galiza podendo-o ser de (H) Espanha?

Assim, posto em perspectiva, o desinteresse das elites galegas em criar um projecto próprio (em linguagem actual: o tradicional anti-independentismo do nacionalismo galego) nom se explica só por impotência, senom também por umha longa tendência histórica na que as elites galegas som o principal sócio fundador de um projecto hispano. Na génese do nacionalismo moderno, o grande teórico irmandinho Porteiro Garea –como os reintegracionistas utilitaristas de hoje-, achava um grande porvir no galego como veículo para um novo projecto nacional hespanhol que incorporasse Portugal e as suas colónias. No Sempre en Galiza umha mesma ideia repete-se constantemente desde todos os ângulos possíveis: a decadência de Hespanha deve-se à hegemonia castelhana, e a Galiza é a imprescindível chave geopolítica para ré-equilibrar o quadro das naçons ibéricas, recuperar Portugal, e com ele a grandeza hespanhola. Com o decorrer dos anos, indubitavelmente, a explicaçom histórica tem cada vez menos peso em comparaçom com o factor da incapacidade: se na pré-guerra os arredistas pondalianos já viam esse “hespanholismo” com agá como ingénuo, hoje é simplesmente ridículo.

Mas, como dizíamos, o PP já nom vai a Monte Faro, onde se juntavam as velhas guardas de reacçom, mas também muita paisanagem que, como o tamborileiro de Cerponçons, de irem a Madrid haviam dizer asinha isso de “queremos voltar a Espanha”. O debalo desse mundo que se cria eterno (que é também o debalo do agro e da língua) deixa passo ao novo poder: o dos senhoritos que se bulram dos preferentistas. Agora o PP procura, numha estratégia bem conhecida, entroncar-se com umha genealogia imaginária que os faria herdeiros da nobreza galega (7). Nom deixa de ser irónico que escolhessem o castelo de Pedro Madruga, açoute dos irmandinhos e posteriormente enfrentado a Isabel a Católica ao apoiar a opçom atlântica de Juana, a Excelente Senhora. Umha nebulosa rodeia a sua queda. A tese que cada vez acumula mais provas no seu favor é a que sustém que Pedro Madruga teria fugido, mudado de identidade, e reaparecido sob o nome de Cristóvao Colombo. (8).

***

Nos arredores de Souto Maior a polícia espanhola defende o castelo. Os irmandinhos das preferentes intentam irromper na festa dos gallegos. O ano passado malhárom neles, neste de momento nom há noticias. A apresentadora de um noticiário espanhol, é de supor que num lápsus, di que os armados estám aí para evitarem “atentados” dos preferentistas. Dentro, a nobreza gallega dá contas do seu governo em Hespanha. Como di um muro próximo ao Castelo de Moeche, “Andrade, PP, a mesma merda é”.

Cárcere de Topas, 31 de agosto de 2013.

P.S: Hoje, 11 de setembro, Rajoy volta ao parlamento espanhol assediado polos escândalos de corrupçom. Umha nuvem de fotógrafos rodeia-o enquanto senta no escano. Mete na pasta um cartafol no que se pode ler em letras grandes: “Galicia”. Sua com o que lhe vem acima, e imagino-me o comentário que faria o Vázquez Souza: “pobre Rajoy, seguro que está a pensar: ‘quero voltar a Espanha!’”.

NOTAS:

  1. O povo galego entrou no sistema identitário moderno, nacional, principalmente através de dous factores exógenos e traumáticos: a participaçom forçosa nas guerras do exército espanhol, e a emigraçom.
  2. Marcial Gondar, Crítica da razón galega, Vigo, A Nosa Terra, 1993, pág. 27.
  3. O Santiago Apóstolo, a própria Virgem do Faro, ou mesmo o popularíssimo Santo André de Teixido. “Que sejamos todos galegos e que falemos tam diferente”, dizia-lhe admirado um romeiro dos anos 60 ao antropólogo Carmelo Lisón Tolosana, De la estación del amor al diálogo con la muerte, Madrid, Akal, 2008, pág. 62.
  4. Arquivo Diocesano de Mondonhedo, Doaçom de 1799.
  5. Castelao, Sempre en Galiza, Livro primeiro, Cap. II.
  6. Historia Compostellana, Livro I, Cap. 90.
  7. Eis Franco assinando o guiom de “Raza” como Jaime de Andrade. O filme é um magnífico documento sociológico para apoiar todo o aqui exposto.
  8. A tese, que bem parece um thriller digno dos Luther Blisett ou James Ellroy, apoia-se em dados de peso: o Almirante foi nomeando nas novas terras com nomes tirados da microtoponímia da ria de Ponte Vedra, o castelhano do seu diário de abordo está inçado de galeguismos, e o que parece mais importante: os estudos caligráficos demonstrárom que os manuscritos de Madruga e Colombo fôrom escritos pola mesma mao. Contodo, nom serám as provas historiográficas o principal obstáculo para os historiadores que defendem esta tese, senom fazer crível o que seguramente seja real.

Carlos C. Varela

Artigo publicado em Praza Pública

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