Marx à mesa. Marxismo gastronómico

Para o Iago Barros

IMG_0004 IMG_0003 De todas as disposiçons e gostos que vam conformando um hábitus ao longo da vida, as alimentícias seguramente sejam as mais estáveis e duradoiras, as mais difíceis de mudar. “Do que se come cria-se”, “é-se o que se come”, e “a nostalgia –pensava Ernesto Guevara- começa pola comida”. No anedotário popular abundam os casos de novos ricos de origem labrega que, após partilharem sofisticado mantel com os seus novos companheiros de classe, lhe mangam umhas cuncas de ribeiro e uns rijons para matar a fame. Igualmente, um nom se fai comedor de tripas –ou de miolos de porco, de filhoas de sangue ou de fígado- se nom se criou nesses sabores desde pequeninho.

Por isso assegura Bourdieu que “a arte do beber e do comer é sem dúvida um dos poucos terrenos que quedam nos que as classes populares se oponhem explicitamente à arte de viver legítima” das classes altas. Mas nom se trata só de aquele que nom renega duns sabores de classe, senom “também o que sabe entrar na relaçom generosa e familiar, isso é, singela e livre à vez, que o beber e o comer em comum favorecem e simbolizam, e na que desaparecem por completo as desconfianças, as reservas que manifestam a distancia com a rejeiçom de misturar-se e de abandonar-se”. Nom em vao, muitas das mais sinceras manifestaçons de orgulho de classe procedem do âmbito gastronómico, e aí também se concentram muitas das mais fortes sançons de classe durante a infância: “Ai! O senhorito nom gosta do caldo…” dim as nais num tom de escárnio doce.

Resta ainda por fazer umha sociologia da alimentaçom que analise as diferenças de classe na atitude dos país face aos cativos, nesses castigos a nom se erguer da mesa até que se remata o odiado prato, onde mais do que umha crença dietética haveria que sondar a profundidade dum “dar-lhe de comer aos filhos” ou “ganhar o pam”.

O jovem Marx deixou-nos nos Manuscritos um texto belíssimo e pickwickiano e farturento sobre a comensalidade socialista que bem paga a pena reproduzir: “Quando os obreiros comunistas se reúnem, a sua intençom é a de ocupar-se de entrada da teoria, a propaganda, etc. Mas ao mesmo tempo apropriam-se por isso dumha necessidade nova, a necessidade da sociedade toda inteira, e o que parecia  nom ser mais que um meio torna-se um objectivo. Este movimento prático permite observar os mais brilhantes resultados quando se vem reunidos os socialistas franceses. Fumar, beber, comer, etc., nom som já simples ocasions para estar juntos, meios para a uniom. A companhia, a associaçom, a conversaçom que abrange o conjunto da sociedade calma-os; para eles a fraternidade humana nom é umha frase, senom umha verdade, e das suas figuras endurecidas polo trabalho, irradiam a nobreza da humanidade para nós”. Assim, num apontamento anedótico, numha “rareza”, o de Tréveris impugna com genialidade chestertoniana a pior das armadilhas que nos tendeu a metafísica ocidental, essa que rompe a vida entre “fins” e “meios”. “Propor fins, palavras –ironizam os Tiqqum-. Tender ao seu cumprimento. Ao cumprimento das palavras. Por enquanto, deixar a existência para mais tarde. Pôr-se entre parênteses. Afastar-se na excepçom de si”… E Marx desartelha-a no espaço feminino da cozinha, longe das palavras maiúsculas. Comendo, bebendo… Encarnando comunismo.

Carlos C. Varela. Terra Ancha, 16 de agosto de 2013. 

Artigo publicado en Sermos Galiza

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