O direito de autodeterminação da cozinha

Carlos C. Varela

“Para peixe fresco Vigo

para chocho Redondela

para camarons Moanha

para caciques Ponte Vedra

Uah! Lalalalailalala!”

As configuraçons identitárias modernas, com base no estado-naçom, continuam a ser alheias para muitas das indígenas galegas que sofrem os seus efeitos. Nas expressons dos velhos sobrevivem os restos do principal eixo identitário que ordenava o mundo antes do nacional: o religioso. Assim, do que nom fala galego di-se que “nom fala cristao”; defende-se os marginados alegando que “também som cristaos”; e os outros do mundo mágico som os mouros.

Quanto aos países, os labregos foram tradicionalmente mais bem ‘confederalistas’, sentiam-se cómodos organizando as suas fílias e fobias nas antigas coordenadas pré-nacionais: “Galegos e asturianos, primos irmâos”, “Castelhanos de Castilha”… E com a língua primava mais bem o ‘internacionalismo’ eis esse gosto de gabar-se de que o catalám ou o italiano “se entendem bem”. (Condutas que confirmam, enfim, as teses de Burke: o campesinato nom se identifica com estados-naçons senom com as “regions naturais”; e quanto à língua a identificaçom funciona mais por famílias lingüísticas do que por idiomas). Mas com a comida… com a comida o ‘independentismo’ ou ‘soberanismo’ é inegociável. Passe que os netos falem o castelhano, mas que rejeitam o queijo do país… Tam forte é essa identidade que, por exemplo, quando o milho híbrido substituiu o do país, este cereal perdeu o seu carácter sagrado e os seus usos rituais. Nom só porque o híbrido nom se emprega na mantença humana, senom porque nom é do país.

Elías T. Feijóo gosta de fazer-lhe à gente o que ele chama “um test identitário perralheiro”. Pergunta-lhes, como galegos, de qual dos seguintes ingredientes nom poderiam prescindir no nosso menu identitário: a língua, a paisagem ou a comida. Nem que dizer tem que os resultados costumam impugnar o tradicional “filologismo” das elites nacionais. Nem bandeiras, hinos ou cerimoniais de Estado, a nossa identidade indígena continua a cozinhar-se –e nunca melhor dito- noutra parte.

Laia-se Eduardo Galeano de que “a indústria está a colonizar os padais do mundo”, arruinando essas “festas da vida” que som as comidas. Há que defender, pois, “o direito de autodeterminaçom da cozinha: sagrado direito, porque na boca tem a alma umha das suas partes”. A alma, e também a Terra e a revolta. Nom em vao, os versos mais duros de todo o nosso cancioneiro de combate, os da disputa de Suso Vaamonde, vam precedidos dos que encabeçam este artigo, apologia da confederaçom tribal, alimentar e anti-caciquil. Até o de agora, a iniciativa levavam-na os contra-revolucionários do “regionalismo de lacom com grelos”; mas o soberanismo alimentar –com a singela efectividade dum dito ou um conto- está a demonstrar que é um imelhorável abre-latas para a tomada de consciência nacional.

28/10/13

Artigo publicado en Sermos

galinhas

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