Do escessivo amor das Montagnais-Naskápi

Carlos C. Varela

solHá muitos anos as naskápi viviam felizes na parte oriental da península do Lavrador, quando esta ainda nom se chamava assim. Eram gente nómada que vivia da caça e a pesca, desprezando o egoísmo e as hierarquias.

Até que chegou a colonizaçom do homem branco. Este, preocupado polo selvagismo da naçom Montagnais-Naskápi, elaborou todo um programa de civilizaçom. O homem branco estimava a generosidade e espírito de coperaçom dos naskápi, mas preocupava-lhe –como se nom fossem a mesma cousa- o nulo interesse que tinham na propriedade privada, na dominaçom masculina ou em qualquer outra autoridade.

O homem branco enviou Paul Le Jeune, jesuíta para além de homem e branco, para tam importante missom. A primeira liçom do seu programa civilizatório foi inculcar-lhes aos homens naskápi o elementar princípio da superioridade masculina, a propriedade das mulheres, e a fim do bárbaro costume da uniom livre e o singelo divórcio.

Como mestre metódico que era, Le Jeune apontava os progressos dos seus alunos num diário: “Dixem-lhe –a um homem naskápi- que nom era honorável para umha mulher amar qualquer um que nom fosse o seu marido, e porque este mal estava entre eles, ele próprio nom estava seguro de que o seu filho, que estava presente, fosse o seu filho. Ele contestou: “Você nom tem juízo. Vocês os franceses amam só os seus filhos; mas nós amamos todos os filhos da nossa tribo”. Comecei a rir –escreve Le Jeune- vendo que ele filosofava como os cavalos e mulas”.

A seguinte liçom foi a de rematar com o bárbaro igualitarismo naskápi e criar as necessárias autoridades e os imprescindíveis chefes. Chefes como os homens brancos, e ainda que entre os naskápi nom havia brancos, sim havia homens. O primeiro problema das primeiras autoridades foi a de pôr ordem entre as mulheres. Para a liçom, o governador da Nova França proporcionou as subvençons necessárias.

Mas as mulheres naskápi, que nom conheceram outra autoridade do que a da liberdade e o bem comum, fugírom dos seus instruídos homens. Alguns deles, os menos dotados para o estudo, tentárom marchar dos povoados coma elas, mas os jesuítas ameaçárom com a prisom masculina. O novo centro educativo dos naskápi. Le Jeune, diligente, aponta no seu diário: “Actos de justiça como estes nom causam surpresa na França, porque é comum lá que a gente actue dessa maneira. Mas entre esta gente (…) onde qualquer um se considera de nascimento tam livre como os animais selvagens que rondam os seus vastos bosques (…) é umha maravilha, ou talvez umha milagre, ver obedecer umha ordem peremptória ou que se realize um acto de severidade ou de justiça”.

Pouco a pouco a civilizaçom ia entrando na naçom Montagnais-Naskápi, e os selvagens transformando-se em cidadaos cristaos com os que poder manter relaçons comerciais estáveis no negócio peleteiro. Nom obstante, um obstáculo continuava a impedir o avanço pedagógico: o excessivo amor que os naskápi lhe tinham às crianças e que lhes impedia bater-lhes. Le Jeune recolhe gozoso no seu diário a que foi a sua mais importante vitória: a primeira vez que golpeárom publicamente umha nena.

E assim foi como, com paciência e meticulosidade pedagógica, o povo Montagnais-Naskápi abandonou para sempre o selvagismo para abraçar a civilizaçom do homem branco e o seu justo amor.

NOTA: O Diário de Paul Le Jeune foi resgatado pola antropóloga Eleanor B. Leacock no seu Myths of Male Domination: Collected Articles on Women Cross-Culturally, Nova Iorque, Monthly Review Press, 1981.

Terra Ancha, 5 de novembro de 2013

Artigo publicado en Praza

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Un comentario en “Do escessivo amor das Montagnais-Naskápi

  1. Muito bom artigo. Que 2014 rache com todas as cadeias. Estaremos em Ordes o 3 de Janeiro desafiando o assédio dos terroristas torturadores.

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