Frutos selvagens

Carlos C. Varela

Mui pouco se tenhem apreciado na Galiza os frutos selvagens, sobretodo em comparaçom com outros países europeus como a França ou Alemanha. Talvez porque a nossa tardia e raquítica industrializaçom nos deixasse a meio caminho nessa viagem de ida e volta, que começa distinguindo-se da rarália para posteriormente ré-apropriar-se dela para os novos usos burgueses. Amoras, arandos ou morangos foram considerados apenas como umha espécie de comida-brinquedo para crianças, à par das filhoas de courelos ou os caldos de saramagos. E ainda, amiúde desconsiderados por alguns adultos que lhes chamavam “comida dos lagartos”. Aparecem, porém, como presente nos encontros eróticos: “amorinhas das silveiras, que eu lhe dava ao meu amor”, cantava Rosalia. Alimentaçom selvagem própria desse topos do erotismo tradicional que, desde Tristám e Iseu, coloca o amor à margem da civilizaçom. Na floresta de Morrois que vam comer os namorados senom amoras e arandos? Mesmo se intensificam as ressonâncias em lugares como Boaço, onde a ir “às moças” lhe diziam “amorear”. Prazer infantil ou de moceio, os frutos selvagens só entram na mesa adulta através do sabor grave e masculinizante do álcool: licores de guindas, de abrunhos…

Se o gosto, junto com o tacto e o olfacto, é relegado ao mais fundo da hierarquia dos procedimentos legítimos de saber; os frutos selvagens correm parelha sorte na hierarquia culinária: estám mais a carom da alimentaçom dos animais do que das pessoas. E, porém, com este humilde saber-sabor escreveu H. D. Thoreau estas formosíssimas linhas, de grande calado filosófico: “Os frutos nom proporcionam o seu verdadeiro sabor a quem os compra nem a quem os cultiva para o mercado. Só há um meio de obtê-lo, mas poucos o empregam. Se quigerdes conhecer o sabor das gaiubas, perguntai ao vaqueiro ou à perdiz. É um erro vulgar supor que tendes provado as gaiubas senom as tendes recolhido. Umha gaiuba nom  chega nunca a Boston; ali nom as voltárom ver desde que cresciam nos seus três outeiros. À parte da ambrosia, o essencial do fruto perde-se com a pelugem desprendida com o roce no carro do mercado, e os frutos convertem-se em provisons”.

No ventre de madeira da sua cabana à beira do lago Walden, H. D. Thoureau adverte contra um dos paradoxos fundacionais da Modernidade: a pretensom impossível de comprar um dom. A sociedade inteira, no capitalismo, converteu-se nessa criança das Confissons de Rousseau: pobre e tristeiro, levava dias a fitar para o escaparate dumha pastelaria até que, um dia, umha senhora lhe dá umhas moedas para que “merques o que queiras”. O neno, desconsolado, botou a chorar. Ele o que queria era que lhe regalassem um pastel. Enquanto se pretende solucionar essa frustraçom generalizada através de supermercados de dons e software da graça, o poço afunda-se mais e mais. Só admite ao jeito de Kraus, umha saída práctica e cheia de silêncio. Entretanto, na Silveira dalgum bosque, há-de estar-se rindo Thoreau com a boca manchada de amoras. “Já vos dixem que nunca, jamais, poderedes mercar umha gaiuba”.

28/10/2013

Artigo publicado no Sermos Galiza

flo

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