Mulheres, esfolhas e repúblicas concelhis

Carlos C. Varela

“… é un asunto de dereito consuetudinario

que non ten nada que ver nin co código

civil dos españois nin coa política”.

M. MANDIANES CASTRO (1)

Queixava-se Manuel António nos anos vinte do esmorecimento da indústria dos prateiros de Padrão, “mais cada vez que atopo a un d’os operarios que aínda a siguen, eu penso ver un rezagado d’o século, medio artesán e medio artista, según quería a vella arela, que teima defender n-os nossos tempos os derradeiros esteos d’unha conceición mais humán e dinificadora d’o traballo e que houbera merecido o cordial aludo d’a santa palabra de Mathma Gandhi”. (2)

Não abundam na nossa Terra as referências ao independentista indiano, cuja luta desobediente se reduz muitas vezes à sua versão sloganizada. Ainda, procura-se paradoxalmente nele uma justificação de passividade, quando era um homem que assegurava que “existe um mal que é pior que a violencia: a covardia”. Para mudar isto, recentemente Joám Evans Pim (3) recordou a aposta de Gandhi num soberanismo integral, relacionando as incessáveis fiandeiras indianas que desafiaram o Império Britânico com a democracia paroquial galega. As fiadas organizadas na Galiza polas mulheres, e outros trabalhos-diversões colectivos como as esfolhas, foram umha fonte inesgotável de criatividade popular: músicas e danças, cantigas, desafios, adivinhas, jogos, contos… E também –como observou Nicolás Tenorio nas de Viana do Bolo- espaços de acertados debates e deliberações sobre os assuntos comunais.

Todo isto fez que o poder visse os fiadeiros como uma intensidade autónoma perigosa que devia diluir. A antologia dos documentos desta repressão é inesgotável: começam no s. XVI nos sínodos de todos os bispados galegos e só se detêm a meados do s. XX, quando se deixa de cultivar o linho. As autoridades criticavam sobretudo que o linho dava “demasiada” autonomia económica às mulheres que, alias, eram as que organizavam e controlavam os fiandeiros como um espaço festivo e promíscuo. “Ayuntamiento de sexos”, “juntas infernales”, “diaboli festum”… todo o repertório do imaginário do aquelarre era mobilizado contra a autonomia das fiandeiras.

Um dos agentes desta repressão foram os jesuítas, que gostavam de comparar o Reino de Galiza com as colónias de América. Sobre estes indígenas de aqém-mar escreverá Pedro González de Ulloa todo um involuntário programa político: “uno por uno son afables y dóciles; en comunidad, suevos; capitaneados, ostrogodos y a pelotones, portugueses, con quienes confinan”. Nesse mesmo livro, aponta acerca dos fiandeiros que ele próprio perseguia:

“El comercio del otro sexo es comúnmente con lino, que benefician y venden en rama o en tela. Es laborioso sin duda, pero útil, si a esto no se le añadiese muchísimo de delincuente. Guardo silencio por decoro debido a las señoritas mujeres”. (4)

O clero compostelano não se conterá tanto, e na sua condena das fiadas vê-se bem como consideravam tão perigosa e autonomia sexual das mulheres quanto a económica:

“en muchas partes convocan las madres de familia a otras mujeres por la mayor parte solteras, y a que las más licenciosas concurren en mayor número y con más prontitud y gusto, no tanto por hilar cuanto por ejecutar más libremente, llegando la noche, sus peligrosas deshiladas, porque a este tiempo concurren los jóvenes, particularmente aquellos que con alguna o algunas tiene amores peligrosos o acaso perniciosos a la honra y conciencia de unos y otros”. (5).

A esta pequena indústria rural soma-se, entre os homens, uma forte emigração atlântica e o recrutamento forçoso para as guerras espanholas, de modo que a meados do s. XVIII por volta de 15% dos fogares do noroeste galego estavam geridos por mulheres solteiras. Nesse contexto emerge entre o poder na Galiza a ideia disso que Foucault chamou o “grande encerro”, a proletarização forçosa das mulheres que não estivessem sob o controlo de alguma autoridade masculina. Em Návia de Suarna, por exemplo, entre 1793 e 1804 foram levadas perante os tribunais 41 moças; “siendo justo que el pueblo se exterminase de mujeres de tan relajada conducta”, lê-se na condena ao desterro de Rosa Díaz (6). Se o grande encerro não foi mais adiante foi, entre outros fatores, polo dessinteresse das autoridades locais, que ignoravam os mandatos estatais e da Igreja. Ninguém dissolve os fiandeiros, e a Diócese de Santiago queixa-se de que “tales excesos crecían con la indolencia de las justicias, que toleraban en las repúblicas concejiles”. (7)

***

Parece que há relação entre a autonomia feminina e a democracia paroquial. Contudo, os concelhos abertos eram território de homens. No concelho aberto de Pedrafita do Zebreiro participavam assim: “Se estám ele e ela, vai ele; se esta a mãe e um filho de 17 ou 15 anos, ou mais, vai o filho. Se só está ela, vai ela”, explicava o pedáneo da época. (8). A tarefa de representação tomava-o o homem da casa, mas pode que os fiandeiros fossem um espaço onde elaborar a influência das mulheres nos assuntos públicos. Em todo caso, de que se falaria nessas repúblicas concelhis? Iriam além dos assuntos meramente locais?

Não há documentos nem atas dessa democracia oral –polo menos dos concelhos mais recentes-, mas há lembranças. Por fortuna Manuel Garcia Barros ‘Ken Keirades’ tivo a ideia, na sua não declarada autobiografia, de reproduzir uma conversa durante uma esfola na sua casa de Berres, a começos de s. XX.

Falam o seu pai e uns vizinhos, e é uma testemunha impagável. Tratam das eleições, do Estado ‘providência’, da guerra, do cárcere… É longa de mais para reproduzir aqui completa, mas paga a pena citar algum trechinho, com a certeza de que é bem mais profunda do que qualquer sessão do parlamentinho (é sabido que o trabalho manual ajuda a pensar). Mas deixemos que o Mingos tome a palavra:

“As eleucións tal e como se veñen facendo, son unha farsa noxenta (…). A nosoutros póñennos aquí a pelexar, e arriba enténdense os uns cos outros, e pra nós a conta é sempre a mesma: pagar. Eu iría a votar de moi boa gana, pro non por Xan nin por Pedro, senón por botalos abaixo a todos. ¿Para qué nos sirven a nosoutros os gobernos? Non vexo pra qué, non sendo pra quitarnos os cartos.

(…) Se se desfán os camiños, nosoutros temos que arranxalos; se desmora unha fonte, nosoutros temos que poñela a avío: lavadeiros temos os que nós puxemos”.

Os labregos de Berres (na Estrada) ainda não conheceram a “incompetência planificada”, e não cientes das suas capacidades. O seu apartidismo não tem nada a ver com o apoliticismo reacionário: é rebelde. Continuam a debater se o Estado dá realmente em serviços (justiça, ensino…) tanto como rouba em impostos às classes trabalhadoras, e de aí passam a questionar o militarismo patrioteiro:

“En canto ó Exército, eu non sei se será unha cousa necesaria. Dícennos que é para defender a patria. Pro iso da patria segúraseme unha cousa algo  confusa, e hai muitos que pensan que a patria son eles. A patria, din os libros de escola, é a terra onde nacemos, e coido que non está mal dito. Mais o que eu vexo é que moitos o que queren é chupar dela; e cando nos arrincan os fillos para defender á patria, non é máis que para defender os privilexios de uns e as bicocas dos outros. Aí estamos coisa guerra de Marrocos, que enxamáis se acaba, sacrificando homes e diñeiro que non ten traza”.

Resolvem que ir votar ou não é o de menos, pois só eles próprios, auto-organizando-se, poderão lavrar uma Terra Livre. Vão mais lá do conhecido “libertarismo espontáneo” galego, meramente reactivo, e propõem ideias concretas, mesmo atacando a indignidade do cárcere:

“o importante é que os labradores señan sociedades en cada parroquia, para se defenderen e tratar de arranxar os seus asuntos, sin depender de caciques nin da sua culimaia, como teño escoitado que se fai noutras partes do mundo. (…)

O mellor sería –di Mingos- que non nos disen nada, pro que tampouco nolo pedirán. Que nos deixen en pas, que xa nos arreglaríamos, pola conta que nos tiña.

-Eu xa tiña pensado niso –diso o Lourenzo-, e coido que non debía  haber máis que parroquias, con libertade de poder axuntarse en federacións, ou como millor visen, conservando cada unha o seu ser.

-Todo iso é moi bonito –ouservóu o Xorxe-, mais eu non sei cómo resultará a cousa. Esquencedes que somos de mala condición para nos levar ben uns cos outros, e sin autoridade, a máis de que tampouco estamos preparados.

-Sí –contestou Mingos-. Somos de mala condición, e inorantes, pro somos como nos fan. Asústannos con todo, facéndonos vivir apouquentados. Diste xeito fanse escravos, servos, xente amergurada, pro non se fai xente boa e útil. A xente faise espelida e boa con educación e convencimento, non con ameazas. E algún que se fuxise da razón, xa buscaríamos maneira de facelo voltar ó rego, sin necesidade de cárceres; a nosa xustiza asegúrovos eu que había ser máis xusta que esa que se nos fai escrebindo nos papés”. (9)

Terra Ancha, 5 de dezembro de 2013

P.S: Cousas da telepatia carcerária, poucos minutos depois de rematar este artigo chegou-me um feixinho de cantigas medievais de parte de Ernesto Vázquez Souza, sobre os concelhos: os urbanos e controlados e os abertos e democráticos. Destaca uma de Pero de Armea que, embora seja de escárnio, retrata uma mulher a falar na assembleia:
“Vós andades dizend’em concelho

Que sobre todas parescedes bem;

E com tod’esto, nom vos vej’eu rem, (…)”

Depois de tudo, não é o mesmo temor masculino perante a mulher pública que está trás a perseguição dos fiadeiros? Primeiro a retórica da mulher falangueira, depois a do aquelarre.

NOTAS

  1. M. Mandianes, O río do esquecemento, Vigo, Xerais, 2003, p. 174
  2. Manuel Antonio, “Cousas de Padrón”, Galicia, 12/4/1925
  3. J. Evans Pim, “Gandhi na eira”. O Golpe. Revista de Pensamento Arredista, nº 2.
  4. P. González de Ulloa, Descripción de los estados de la casa de Monterrey en Galicia, Madrid, CSIC, p. 28.
  5. Arquivo Diocesal de Santiago, Sínodos, 1730, leg. 1214.
  6. P. Saavedra, La vida cotidiana en la Galicia del Antiguo Régimen, Barcelona, Crítica, 1994, pp. 252-256
  7. Arquivo Diocesal de Santiago, Sínodos, 1740, leg. 1215.
  8. C. Lisón Tolosana, Antropología Cultural de Galicia, Madrid, Siglo XXI, 1974 (2ª edición), p. 116-117. Há abundante informação sobre o concelho abertro até os anos 60 nas páginas 56-58 e 113-123.
  9. M. García Barros, Aventuras de Alberte Quiñói, Vigo, Castrelos, 1976 (2ª ed), PP. 231-243

(Artigo publicado en Praza)

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