A “Terrible Beauty” de Guilharei

Carlos C. Varela

A genealogia do movimento nacional galego costuma apresentar-se como uma sucessão de etapas literárias. Contra esta conceção inteletualocentrista da história têm-se pronunciado historiadores como Antón Capelán, para quem, na passagem do regionalismo ao nacionalismo político irmandinho, foi muito mais importante o sangue agrarista (“Un padrenuestriño polos que morrerom en Oseira, Nebra e Sofá!”, rezava o quadrinho de Castelao) do que a disquisição teórica. De entre esses massacres de campesinos rebeldes a mãos da Guarda Civil sobressai a de Guilharei, na comarca do Baixo Minho. Em 27 de novembro de 1922, os uniformados apresentam-se na aldeia de Sobrado e disparam contra a multidão insubmissa aos pagamentos dos foros. Assassinam Cándida Rodríguez, Joaquina Estévez e Venancio González. A partir de aí os acontecimentos precipitam-se numa direção vertiginosa. Nascera essa “terrível beleza” da que falava W. B. Yeats, apenas uns anos antes, referindo-se ao alçamento da Páscoa.

Em Cuba, o Comité Revoluzionario Arredista d’Habana emite um acendido comunicado chamando à insurreição independentista:

“Cabres recibidos da Hespaña o 30 de November de 1922 comunicannos a espeluznante notiza de qu’en Guillarey (Tuy) acaban de ser vilmente acribilados por balazos uns labregos galegos por haberse negado a pagal-os foros que veñen cobrando uns siñores caciques, amparados pol-o salvaje Centralismo. Os compoñentes do “Comité Revoluzonario Arredista Galego” –que todos somos filhos de labregos- erguemos nosos berros de portesta scontr’o novo aldraje qu’o cafre Centralismo acaba de cometer coa Nazón Galega. N-hai que dubidar, quiridos país e irmáns na Galiza, que, pra poder imponer os nosos direitos e respeto é necesario que tódol-os galegos nos asoziemos a unha idea: sentirnos abertamente arredistas (…)” (1).

O comunicado continua, em prosa cabanilhiana, exortando à constituição de comités clandestinos na Terra para a ação direta.

No 3 de dezembro, a iniciativa da Irmandade da Fala e com apoio da Federación Provincial Agraria, organiza-se um enorme mítin na Corunha, com representação de mais de trinta sociedades agrárias, e adesões de persoeiros e concelhos. Nunca soara tão forte a consigna de “independência”. Nuns dias, o nacionalismo evoluciona mais que em anos. A crónica de A Nosa Terra começa assim:

“Diante dos infames asesinatos cometidos pol-os caciques en Guillarey todol-os galegos de concencia limpa pensaron que son chegadol-os momentos de tomal-a xusticia pol-a mán; pero sin perxuicio de que a xente honrada teña que defenderse d’agora en para diante a tiros das acometidas dos caciques, como se defende un do lobo ou dos ladrós, Galicia non podía deixar pasar un istante sin deixar ouvir a sua vos de condenación, que resoase robusta en todol-os recunchos onde latexe un corazón galego”. (2)

O primeiro orador é o advogado e agrarista Alfonso da Cal, quem “Procramou a necesidade da independencia de Galicia, para quen o Estado centralista non é máis que un estigma”. Segue-lhe o concelheiro nacionalista da Corunha Peña Novo:

“Falou do desastre de Marrocos e dixo que alí se perderá a dinidade, e todol-os valores morales que son a razón de eisistencia d-un pobo; por iso Hespaña está sentenciada a morte na Hestoria, e por iso nada valen as protestas n-un Estado que está vivindo con deshonor. Por iso o mitin é mais que un acto de protesta: e unha espléndida manifestación da persoalidade de Galicia, que se xunta en convención para dicirlle ao Estado español que desde agora recabamos a nosa independencia para rexir os nosos destinos. (…) e rematou pidindo a xuntanza de todol-os galegos para recabar a soberania da nosa Terra”.

Por sua parte Martín Martínez, secretário do concelho corunhês, e presidente da Seición de Cultura do ‘Circo de Artesanos’, a mais numerosa associação de Galiza, chama a solucionar o “problema de libertade e de dinidade” constituindo “un Parlamento galego, vibrante e decidido, que impoña ao Poder central a vountade soberana de Galicia”. Falará a continuação Xaime Quintanilla, na altura militante da ING:

“Mostrouse partidario da aución directa contra dos caciques e dixo que cando caia algún nacionalista ametrallado por mandato dos caciques, tamén éstos han de crer (…) Dixo que (…) o úneco culpabre é o Estado español, eterno enemigo das libertades galegas, que nunca serán unha realidade mentras non acabemos c-o ise Estado, a quen todolos galegos debemos decrarar guerra a morte”.

No seu turno Lugrís Freire atacará a falacia reacionária por excelencia, essa que culpabiliza as vítimas. Por isso, diz Freire, os que culpam os ativistas utilizam “a disculpa que dan todol-os asesinos, de que non matarían à xente si éste se deixase roubar sin defenderse”. A continuação, García Acuña, presidente da Federación Provincial Agraria e director do “El Noroeste” recordou que “si no Código penal hay un artigo que condena o asesinato, tamén hay outro que autoriza a lexítima defensa”. Ainda:

“Manifestou que n-este caso debíamos ter presente o exempro de Grecia, pero que si os hespañoles ao liquidar as responsabilidades de Marrocos se esquecían d-aquel exempro, os galegos, cando os nosos caciques queiran volver de Madrí para seguir atropellándonos, debemos poñer en Quereño, nas fronteiras da nosa Patria, un anuncio que diga: “Non podedes pasar, peligro de morte””.

Encerrou o ato o filósofo Johán V. Viqueira:

“dicindo que Galicia, con serenidade, con civismo e democracia exemprares recrama xusticia dos Poderes costituídos, pero que coa mesma serenidade, segura nos seus destinos e no seu ideal os emplaza para dicirlles que si non se fai xusticia, Galicia está disposta a utilizar todol-os procedimentos de violencia para conquistar os seus direitos e facer respetal-as suas libertades de pobo civilizado.

Rematou con un “¡Viva Galicia Libre!”, que foi unánimemente constestado”.

O cronista, entusiasmado, assinala que “Poucas veces ten habido un acto tan impoñente”. As conclusões aprovadas apelam à libertação dos detidos, demissões e depurações de responsabilidades, e a “supresión das Diputaciós provinciales e a creación d-un úneco Poder Galego”. Em paróquias como a de Vilalva, os irmandinhos pugeram as conclusões na porta da igreja, junto com uma bandeira galega com crespão de luito, e juntaram dinheiro para as famílias dos assassinados.

Cándido, Joaquín e Venancio, não morreram luitando pola independência, e quiçá –só quiçá- nem se identificaram com o agrarismo muito mais lá da defesa dos seus interesses imediatos como labregos. E contudo, a sua insubmissão que lhes custou a vida, abriu o espaço dos possíveis e tornou pensável a libertação galega. Foram casos como o seu o capital simbólico fundacional com o que o nacionalismo pudo ir definitivamente para além da reivindicação cultural.

***

Usseira, Nebra, Sofã… Nestas interações entre “o indígena” e “o nacional” (por chamar-lhe de algum jeito à diferença entre uma trama identitária pré-moderna e outra moderna) nasceram sempre os episódios mais frutíferos para o movimento galego. E, novamente, os mitos fundacionais do nacionalismo moderno (Castrelo de Minho, Encrovas, Baldaio, Jove…) abrolham nessa cumplicidade, enquadradas em luitas concretas, em defesa da Terra e contra a modernidade capitalista. Nelas retroalimenta-se o indígena e o nacional: o movimento nacional-popular encontrava uma caixa de ressonância para a conscientização política em chave nacional, e o indigenismo abasteceu-se dum moderno repertório de protesto, que lhe permitiu apresentar-se perante o poder como o que Chantal Mouffe chama um “legítimo adversário”. Dito de outro jeito: o nacionalismo encontrou combustível político, e o “indigenismo” uma equipa de tradução –um uniforme de combate, como diz o Júlio Teixeiro- que tornava as suas reivindicações visíveis na arena política (3). A antropóloga Nieves Herrero, por exemplo, tem estudado como a campesinhada de Encrovas aprenderá a dramatizar e pôr em cena a sua luita indígena como nacional, para tornarem audíveis e visíveis os seus protestos, presionando a nível mediático. (Mesmo a conversão do nome da paróquia, que sempre foi Encrovas, num mais nacional-popular “As” Encrovas, poderia ter que ver com esse trabalho coletivo de apresentação de si). Por sua parte, o gabinete de advogados de esquerdas que levavam a negociação das expropriações com FENOSA, também souberam recorrer às artes da resistência quotidiana: cada vez que se parecia chegar a um acordo, um conhecido vizinho, pertencente ao comité negocionador, fazia-se o despistado e pedia-lhe ao representante da empresa que voltasse repetir todo o já falado. Assim, por desgaste, realizava-se aquela consigna dos subalternos resistentes de fazer-se o parvo para ganhar com inteligência.

Terra Ancha, 17 de janeiro de 2014

NOTAS

  1. O comunicado completo pode-se ler em Xurxo Martínez González, Fuco Gómez, AGER, 2007, pp. 54-55
  2. A crónica, detalhada, em A Nosa Terra, 15-XII-1922
  3. Sylvie Poirier (“Reflections on Indigenous Cosmopolitics-Poetics”, Anthropologica, nº 50, 2008, pp. 75-85) tem explicado como os indígenas aprenderam a não exprimir aqueles aspetos das suas ontologias que puderem ser considerados, os ponto de vista moderno, como “pouco sérios”. Um exemplo típico para o caso galego seria o da oposição a uma macro-infraestrutura como uma autoestrada: as labregas oponhem-se porque destrói a geografia mágica da comunidade e os seus marcos de referência, mas constuma-se explicitar unicamente em termos económicos ou de outro tipo.

(Artigo publicado en Sermos)

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