Do tempo, da desobediência, da justiça e da paz

Do tempo que nos roubam.

William Shakespeare dizia “hai muitos dias em cada minuto”. 805.680 minutos e 13.128 horas depois Carlos segue fechado ‘preventivamente’ e -se acreditamos no dramaturgo inglês- ao amigo, vizinho ou companheiro, ao cidadám Carlos roubarom-lhe ja, por obra e graça do régime de excepcionalidade encoberto, muito mais dos já de por sim injustos e arbitrários 564 días que leva presso no que, primeiro terrorista e depois Nobel da Paz, Nelson Mandela, deu em chamar o ‘gris deserto de formigom e silêncio’.

Tempos roubados. A Carlos, á sua familia e amigxs…. a todas. Para sermos honestos devemos reconheçer que a nossa vontade rebelava-se contra a nossa raçom; ressistindo-se a primeira a conciliar este artigo com a segunda. Mas, finalmente, decidimosrubem assumir como o mínimo imperativo solidário as palavras do anticapitalista  francês Jean Marc Rouillan “somos, também, o te mpo que estes cabróns nos dam em roubar”.

Nom nos deixemos enganar. No que som realmente expertos quem manejam as diversas cloacas do Ministerio del Interior é na gestom do tempo, na cronopolítica. Ou mais bem, na reduçom das dimenssons do tempo e do espaço. A cronopolítica aplicada polo populismo punitivo como instrumento de distracçom ante os problemas reais dos governos de turma. Desta maneira nom escatimam em deter, controlar e tratar de desbaratar o universo temporal e vital de Carlos ou de quem estimem precisso: ad maiorem gloriam da imprescíndível criaçom dum inimigo interno. Contudo, no seu câlculo de destruçom ignoram algo importante. Como deixou escrito Sartre “o importante nom é o que tenhem feito de nós, senom o que nós somos quem de fazer do que de nós tenhem feito”.

Da desobediência e dos exemplos.

Pensemos agora num mal momento. Num desses trances da vida no que os segundos convertem-se em minutos e as horas nom dam passado. Comprendendo a imensa longitude dum desses instantes poderemos figurarnos o que a Audiencia Nacional, o Estado (de excepçom), o Direito penal do inimigo mais o delírio das legislaçons de emergência feitas legalidade ordinária procuram impór com cada um dos 45 milhons de segundos que o Carlos leva presso. De início, um propósito: submeter, amansar, domar a quem oposto ao gris construi respostas de mil formas e cores. E no final, um objectivo central em tempos onde a gente exige e começa a se agitar: aleiçoar, delimitar linhas vermelhas. Exemplificar.

A história recente está cheia de nomes próprios e de excessos do Estado por exemplificar. Inumeráveis som os anónimos, os invisiveis. Nanni Balestrini, militante da Autonomia política que construiu a enorme vaga de subverssom social e cultural que atravessou Italia no final da década dos 70 foi acussado de ser um dos ‘instigadores teóricos’ (?) da revolta ulterior. Após ter que refugiar-se na França e ser julgado -e absolvido, por certo- escreveu no exílio Gli Invisibili (Os invissíveis). Provavelmente umha das melhores novelas arredor do binómio repressom-cârcere, quer dizer: o cenário que precissa construir o Estado para tentar encerrar e rematar a potencialidade de qualquer resposta social. Balestrini ensinou-nos, entre outras coisas, que a criminalizaçom e o cárcere forom -e serám- a principal receita dos governos temerosos do exemplo das pessoas que teimam por artelhar no presente um futuro mais humano frente à devastadora aplanadora neoliberal.

Igualmente falava Henry David Thoreau, pai da desobêdiencia civil, quando repetia com insistência em 1848 “baixo um governo que encarcera injustamente, o sítio adecuado para umha pessoa justa é também o cárcere”. Que a humanidade, nas suas diferentes expressons sociais, avança graças a quem por meio da desobediência vai desmontando legalidades injustas ganhando legitimidade e construindo justiça é umha obviedade. Ai estám as vidas de Voltaire, Gramsci ou Mandela. Rosa Parks, Emmeline Pankhurst ou Malala Yousafzai . De invissíveis a vissíveis. Cada quem no seu tempo. Cada quem no o seu lugar partilhando um comúm denominador que é, a um tempo, comprometido e comprometedor: a acussaçom de ser violentos em mundos onde o monopólio da violência é aplicado polo Estado, precissamente contra os seus próprios cidadaos.

Porem, na decadência do Regime da Transiçom deveríamos ter bem sabido o que se dizía ao calor da caída do Antigo Regime. Nom hai pior tirania que a exercida baixo a sombra das leis e a apariência de justiça.

Da justiça.

Hai quem dí que a justiça é a verdade em acçom. Nom obstante, desde a justiça do Estado tilda-se de radicais e acussa-se de terroristas a quem questionam um statu quo no que a desigualdade e a pobreça crescem exponencialmente, alongando qualquer vestígio da verdadeira justiça, a justiça social.

Mas estám errados: ‘Oker Dabitza’. Isso dizia Josu Muguruza, basco de esquerdas assassinado em Madrid um 20 de novembro de 1989 após ser eleito deputado.

Oker Dabiltza, estám errados, sim, e nom deveriam esquençer que ante os olhos e a consciência de cada vez mais pessoas neste pais que teima por seguir esperto, a condena do inocente passa por ser a condena do juiz.

Francisco de Quevedo apostilhou também no seu idioma, em castellano: “Donde hay poca justicia es un peligro tener razón”. Era pola sua parte um grego, Aristóteles, o que apontava “volvemo-nos justos realizando actos de justiça”. Vai sendo hora, sendo justos e justas, de construirmos muralhas humanas de liberdade que traiam de volta a Carlos a Loureda e que impidam que levem a mais.

A conclussom é clara: o poder cria a lei, mas som as oprimidas as que tenhem de criar a justiça. Martin Luther King, negro e oprimido, manifestou-no com claridade: “A verdadeira paz nom é a ausência de tenssom, é a presença de justiça”. E ai estamos, conscientes do tempo e a gente que nos roubam, procurando que devolvam para a sua casa a Carlos e a tantas outras às que nunca deverom arrincar.

No fim de contas é esta umha questom de direito. É polo tanto umha questom de justiça. E sim, também umha questom de paz.

Antón Gómez-Reino, tone e Rubem Centeno Paradela

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