São Martinho e os dias de Xavestre

Carlos C. Varela (21/4/14)

A seguinte cançãozinha, transcrita por Carlos Sixirei Paredes, cantavam-lha às crianças de Xavestre (Traço) para aprenderem os dias da semana:

“Cartagena vai a leña

luns vai

martes chega

cuarta colle

quinta carga

viernes ata

sábado ven

Cartagena co seu carro de leña”

Nela ficam os restos do sistema tradicional galego-português de denominação dos dias da semana: o das feiras. Domingo, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira e sábado são os dias da semana tradicional. Este sistema, único em Europa, deve-se a Martinho de Dume, bispo de Braga, capital do Reino suevo da Galiza. O seu labor na Galiza é equiparável ao do São Patrício na Irlanda. No ano 474 escreve-lhe a Polémio, bispo de Astorga, uma carta com conselhos para a cristianização dos galaicos: o famoso De Correctione Rusticorum. No texto,  que demoniça a religiosidade camponesa, queixa-se dos galaicos, que “não crem de todo coração na fé de Cristo, antes bem, vivem com tal anbiguedade até o ponto de porem a cada dia os mesmos nomes dos demos, e por isso denominam o dia de Marte, e de Mercúrio e de Júpiter, e de Vénus, e de Saturno, os quais não fizeram nenhum dia, que foram homens pésimos e malvados entre a gente dos gregos”. Ainda, lamentará o dumiense os gosto das galaicas por casarem no dia de Vénus (não em vão, Blanco Freijeiro tem indicado que as inscrições dedicadas a Venus Victrix costumavam proceder da Gallaecia e Lusitania). Assim as cousas, o bispo implanta o sistema de feiras para erradicar “os demos” do calendário; até que a castelhanização sustituiu as feiras por luns, martes, mércores… Contudo, ainda na cidade de Corunha se cantava a começos do s. XX:

“Hoxe é luns, mañán é martes

cuarta feira logo vén

logo che ven o domingo

para ver a quen quero ben.

Cándo ha de ser domingo

domingo cándo ha de ser

cando ha de ser domingo

meniña para te ver”.

A pesar disto o São Martinho não havia de cantar vitória: o sistema de feiras não eliminou as crenças vinculadas aos dias pagãos. Nas respostas ao inquérito etnográfico do Ateneu de Madrid (1901-1902), o informante de Junqueira de Ambia escreve: “Se o nascimento ocorre em segunda-feira (luns), o nado padecerá loucura (lunático); se em terça-feira (martes), terá vida curta e a guerra será o seu ideal; se em quarta-feira (mércores) apoucado e melancólico; em quinta-feira (xoves) um besbelho e mui lançal; em sexta-feira (venres) emprendedor, e em sábado mui afeito ao estudo e de aspecto humilde”.

Xosé Ramón Mariño Ferro, antropólogo que se tem ocupado dos saberes astrológicos da cultura popular (La llave de la astrología, Barcelona, Teorema, 1989), explica assim o influxo dos astros de cada dia: “os nados em luns, dia baixo o influxo da Lúa, são lunáticos, porque a Lúa é um astro que muda de seguida, continuamente. Os nascidos em martes, baixo o influxo de Marte, são guerreiros porque Marte –vermelho como o sangue- é o deus da guerra. Os nascidos em mércores, baixo o influxo de Mercúrio, são ágeis de espírito, porque o astro se move mui rapidamente; são de espírito gregário, porque o astro acompanha sempre o Sol, sem despegar-se dele. Os nascidos en xoves, baixo o influxo de Júpiter, que é um astro nem mui rápido nem mui lento, são equilibrados tanto no aspecto físico como no psíquico. Também são bastante equilibrados os nascidos baixo o influxo de Vénus. Os nascidos em sábado, baixo o influxo de Saturno, que é velho por ser planeta lento, têm a sabiduria dos velhos”.

Sempre se poderá consolar, São Martinho, pensando que a cousa lhe podia ter saído pior: no dialeto basco de Zuberoa ao sábado chamam-lhe “neokeneguna”, ou seja, “dia das moças”. Em Valcarlos-Luzaide (na Alta Navarra), o antropólogo José Maria Satrustegi recorda que “ainda no nosso século (XX) (…) os moços de Valcarlos costumavam dormir nos sábados nas casas das suas noivas”, por isso lhe chamavam ao sábado “Amoros eguna”, “dia dos amantes”.

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