Carlos, meu pai e as bombas espanholas

jacobe pintorHá já algum tempo que o Carlos escreveu um artigo intitulado Spanish Bombs que podemos ler neste mesmo blogue. Surpreende, como em todos os seus textos, a capacidade que el tem para deitar luz sobre pontos escuros, ali onde nom parece que se passe nada estám as cousas importantes. Deve ser este mais um motivo polo qual hoje tentam privar-nos da sua presença na terra, porém bem se vê que fracassam no intento.

O Carlos fala nesse artigo dos milhares de bombas de selo franquista que som desactivadas cada ano polos Tedax, estas encontram-se por todo o lado mas ninguém repara, algumhas até explodem  segando vidas como a do vizinho de Ordes que nomea o Carlos no artigo, ou amputando braços e estirpando olhos como o artefacto que explodiu nas maos do meu pai. Vítimas que nom existem, nom contabilizam.  É o terrorismo como paisagem, o terrorismo como ecologia como bem o descreve o Carlos.

Estremeceu-me o artigo do Carlos porque o seu relato está escrito com lume no corpo do meu pai, desgarros na pele provocados pola metralha, amputaçom do braço esquerdo desde o cotovelo, amputaçom dum dedo da mao direita, pérdida do olho direito. O corpo do meu pai é um livro proibido e eu tardei em reparar nel. Quando era neno imaginava que todos os pais eram assim, nom via qualquer diferença, mas a julgar polos comentários fantasiosos dos meus companheiros de escola devia ser evidente, até lembro que se estendera o rumor de que meu pai empregava um gárfio para conduzir. Nom consigo recordar quando foi a primeira vez que nos contou a mim e a meu irmao o que realmente lhe tinha sucedido, mas tenho a certeza que deveu ser em resposta a umha pergunta directa.

Sucedeu na paróquia de Gonçar, no concelho do Pino, na década de 60 do século passado. Umha tarde de jogos no monte com os vizinhos encontram um objeto estranho, resolvem que o melhor é quebrar aquele objeto para o estudar a fundo, meu pai apanha umha pedra  para fender o cacharro e pum!.

Parece que naquela altura o cinema nom tinha chegado ainda a Raval de Riba na paróquia de Gonçar, pois se tivessem visto algum filme bélico era mais do que provável que reconhecessem aquela granada de mao perdida durante o massacre acometido na Galiza. polo fascismo espanhol.

Depois do impacto que causou o relato do meu pai nas nossas mentes de adolescentes todo seguiu com normalidade. Aquela era umha história familiar e o meu pai sempre tomou as suas eivas com o humor corrosivo que lhe é próprio e que eu sempre admirei e admiro. Toda a sua vida luitou para superar as limitaçons, nunca o escuitei lamentar-se, todo polo contrário.

Quando meu pai chegava a casa para o jantar com a mala do trabalho,  as crianças da vizinhança rodeavam-no nervosas e excitadas, pois o meu pai tinha-lhes dito em mais dumha ocasiom que levava guardada nela a mao que lhe faltava. Todos berravam fazendo imenso barulho,  queremos vê-la, queremos vê-la!, céticos mas seguindo-lhe o jogo. Um dia, meu pai parou-se, pediu-lhes para lhe darem espaço e começou a abrir a mala muito devagar, era um jogo para eles, nom acreditavam mas dalgum modo queriam acreditar. Ali ninguém respirava, e de súbito zas! voltou fechá-la repentinamente, –Manola espera-me para comer e enfada-se se chego tarde– dixo meu pai perante a cara de susto extraordinário e ao borde do colapso dos meninhos do bairro.

A cousa foi sempre assim, meu pai levava escrito no corpo um relato, mas a sua retranca selvagem ocultava as letras, nom deixava que ninguém o lesse até o dia em que se mostrou como um livro aberto.

Foi no Centro Galego de Arte e Imagem da Corunha,  meu pai frequentava-o pois ele gosta de cinema. Esse mesmo dia fazia fila aguardando para entrar na sala, tentando afastar a vista das fotos de carros calcinados e corpos desmembrados que faziam parte dumha exposiçom que a Asociación de Víctimas del Terrorismo junto com a Guardia Civil organizava nessa espécie de pátio coberto do edifício.

Alguém repartia trípticos com informaçom do evento e meu pai rejeitou o panfleto, nesse momento aquele sujeito increpou-no e acusou-no de ser insensível para com as vítimas do terrorismo, mas aí entretanto o meu pai já tinha arregaçado a manga da camisa para descobrir o munhom, erguendo-o, deixando que falasse por si mesmo, que contasse o relato proibido, aquele que nom está escrito na história dos que contam a História, –vas falar-me tu a mim de vítimas do terrorismo?-  dixo aos berros perante umha audiência que nom puido ficar indiferente.

O artigo do Carlos voltou lembrar-me o gesto magnífico do meu pai, escrevim-lhe emocionado para o cárcere de Topas o relato do me pai, e el pediu-me para publicá-la neste blogue que recolhe as histórias e os relatos que nom existem, que estám ocultos e  som proibidos por aqueles que escrevem a história da infámia, os mesmos que procuram afastar-nos do Carlos através de métodos auténticamente terroristas. Bem se vê que fracassam no intento.

Jacobe  Pintor Vigo. Desempregado.

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