Julio Cortázar, harredista galego

Carlos C. Varela

cortazarSobre o “H” de Hespanha há, na realidade, várias teorias. A primeira é bem conhecida: o galeguismo de pré-guerra, liderado por Castelao, teria tirado da cartola um último truque para continuar a crer que uma outra Espanha era possível, e manter as ilusões renováveis. Esta uma outra Espanha seria “Hespanha”: o agá, como gostavam de dizer, suavizava a castelhanista Espanha, tornando-a mais verde e húmida, num novo equilíbrio plurinacional. Nenhum historiador “sério” desmentiria esta versão oficial sobre o misterioso “H”; mas apenas há que ler os próprios textos da época para dar-se conta de quão pouco a sério era tomado esse conceito político de “Hespanha”, central na sua ideologia: umas vezes escrevem contra Hespanha, outras falam de Espanha como referente positivo, às mais das ocasiões alternam as duas sem critério nenhum… Um enorme enredo conceptual que ainda hoje não foi desenguedelhado.

Mas por galaico tabernas, centros sociais, trás-tendas de cooperativas gráficas… circula desde há décadas a teoria esotérica que sustém que, isso de “Hespanha”, era um brinquedo dadaísta que se lhe foi das mãos ao grande Manoel António. Ao poeta-marinheiro, em tanto que arredista, tanto lhe tinha a Espanha com agá como sem ele: ele era galego universal e ponto. O jogo poético do de Assados começaria como uma maneira de ridiculizar a metrópole, reduzindo-a a entruidada; mas sempre há quem tome a sério os maiores disparates… Mesmo numa outra Espanha.

Asseguram as iniciadas que esta teoria se corrobora no Rayuela de Julio Cortázar. O capítulo 90, sempre segundo estas, conteria uma velada homenagem ao arredista dadá, quando Horacio Oliveira joga a conjurar a sua própria grandiloquência através do “h”: “En esos casos Oliveira agarraba una hoja de papel y escribía las grandes palabras por las que iba resbalando su rumia. Escribía, por ejemplo: “El gran hasunto”, o “la hencrucijada”. Era suficiente para ponerse a reír y cebar otro mate con más ganas. “La hunidad”, hescribía Holiveira. “El hego y el hotro”. Usaba las haches como otros la penicilina”. Antibióticos para virus de la hunidad de Hespaña. Contudo, as mestras do esoterismo galego reconhecem não terem a certeza –senão não seria uma teoria esotérica- de como conheceu Cortázar o secreto do harredismo dadá. Aqui as hipóteses multiplicam-se num mar de dados históricos, coincidências, caminhos, que se bifurcam e especulações sem base documental. Muitos procuraram bibliografia e rigor historiográfico como bússola para se orientarem nesta confusão. Porém, quiçá não haja, para este mistério, outra metodologia possível que a da própria rayuela, ou melhor dito: Mariola (tal e como aponta Cortázar na página 134 do caderno de bitácora de Rayuela). Com ela, pois, adentremo-nos no océano-Cortázar à procura dum “h”.

***

“Las palabras son como nosotros, nacen de una cara y no hay tu tía. Pensá en la cara que tenía Kant, decime un poco. O Bernardino Ribadavia, para no ir tan lejos”. Celhas juntas e olhos separados, desta cara de lobis-home entranhável e chamoso nascia, há agora cem anos, a palavra Julio Cortázar. Na altura Buenos Aires era a cidade com maior população galega, por volta de 150.000 pessoas, quando A Corunha apenas chegava às 60.000. A diáspora organizava-se conforme as formas indígenas de paróquia-comarca-Terra, e os pondalianos d’A Fouce enchiam as paredes portenses de reivindicações galegas. Quando o jovem Julio começa a escrever, os galegos já se erigiram na máfia do campo cultural bonaerense.

“Yo tengo probado que los gallegos respiran por el idioma”, asegura uma personagem do El examen. Cortázar conhecia bem a raça destes mergulhadores metafísicos. A sua primeira dona, a galego-argentina Aurora Bernárdez, recorda que Cortázar tinha a impressão de que os galegos “eram menos rotundos, menos perentórios que os castelhanos ou que os restantes povos de Espanha, mais moderados, sim, menos ásperos”. Nado em terra libertada, Julio Cortázar conservava certo independentismo retrospetivo ou preventivo: a sua obra está repleta de espanhóis com tiques autoritários, antigos colonizadores que argumentam a golpe de “¡Se lo digo yo!”. Quiçá por isso o seu bom entendimento com os nossos exilados.

A relação que mantivo com o triângulo conformado por Arturo Cuadrado, Luis Seoane e Lorenzo Varela (estudada a fundo por Francisco X. Fernández Naval), será qualificada por Eduardo Montes-Bradley de “estratégica” para a sua trajetória literária. Quando Cortázar contata com a máfia galega esta achava-se em pleno rendimento: na editorial Losada, Seoane ilustra os livros de autores como Aldous Huxley ou Jean-Paul Sartre; em Emecé, dirige com Cuadrado as colecções Dorna e Hórreo; e junto com Lorenzo Varela edita a revista Correo Literario. O capo Seoane é omnipresente.

No número 19 de Correo Literario, em 15 de agosto de 1944, os galegos publicam o relato Bruja, assinado por um quase desconhecido Julio F. Cortázar. Nesse dia fazia trinta anos. Em fevereiro de 1948, Cabalgata dá a lume outro relato cortaziano, Lejana. Diario de Alina Reyes. Estoutra revista dirigem-na Seoane e Varela, junto com Joan Merlá, e nela colaborará Julio com quarenta e dous textos de crítica literária. Nesse tempo a máfia funda a editorial Nova, e Cortázar traduz-lhes do inglês O homem que sabia demasiado de G. K. Chesterton, e as Memorias de uma enana de Walter de la Mare. Cuadrado disporá do original do primeiro livro de relatos de Cortázar, que devia ilustrar Seoane, mas afinal “passam-se” e publica os mais recentes de Bestiario. Os primeiros não verão a luz até que edite os seus contos completos. Cuadrado… Seoane… Varela… Produziu-se aqui a entrada de Julio Cortázar no esoterismo do “h”? Há mais hipóteses.

Através de Aurora e o seu irmão Francisco Luis Bernárdez, Cortázar conhece outro importante sicário: Eduardo Blanco Amor. O auriense fora enviado por Risco à Argentina com a missão de organizar o nacionalismo na diáspora. Enfrentado com o sector independentista, que o acusam de personalista e possibilista, e seguramente também alvo de homofobia de alguns líderes da Galiza de além-mar, retirará-se para a literatura. Cortázar referirá-se a ele no livro Imagen de John Keats, que escreve antes de se transladar a Paris. Nesse trabalho que tanto o marcará (“Uma das cinco cousas que gostaria de salvar seria um dos poemas de Keats”, confessará-lhe a Evelyn Pico), contará com a ajuda de Mariquinha Valle-Inclán, quem lhe proporciona todas as referências a Keats na correspondencia Gide-Claudel. Há que recordar, para maior glória da mafia, e complicação da nossa investigação, que o texto do Imagen de John Keats é redigido na rua Lavalle, no piso franco do matrimónio Dieste.

Outra possibilidade é que Cortázar entrasse em contato com o dadaísmo arredista nas suas viagens à Galiza. Em 1956 Julio e Aurora visitam a Galiza. Já em Paris, Cortázar descreve-lhe por carta a sua experiência a Eduardo Jonquiéres: os “gloriosos polvos” que comeram em Compostela; a formosura da paisagem em contraposição à Espanha de postal; a súbita compreensão da lírica medieval galaico-portuguesa… “Ourense, Redondela, as rias, os vinhedos infinitos com as cepas escoradas em susténs de granito, como pequenos dólmens que brilham entre o verde. Prometim-me, se tenho alguma vez um deux chevaux levar a Aurora à Galiza, instalar quarteis de primavera en Redondela e dedicar-me aos passeios, à pesca e a arborizar, como Rousseau”. Voltarão no ano seguinte, instalando-se em Lourido e desfrutando do Atlântico. Oito anos mais tarde, em Viena, escreve-lhes a Sara e Paul Blackburn sobre os seus desejos de voltar à Galiza, mas jamais regressará.

Chegamos assim à última hipótese, à que os esoteristas galegos dão mais probabilidades. Aqui entra em cena Álvaro das Casas, o polémico arredista de Nóia, o homem das mil caras. Cortázar contata com ele porque, no exílio, das Casas funda a editorial Emecé com Mariano Medina del Río. Emecé é uma peça importantíssima da máfia, com Seoane de director artístico e Blanco Amor recrutando a Jorge Luis Borges. Das Casas, como Manoel António, era independentista, e apesar das suas derivas ideológicas, bem pudo ter conhecimento, de jovem, do ready made “Hespanha”. Quando protagoniza uma cisão arredista no Partido Galeguista, criando a Vangarda Nazonalista Galega, baptiza o novo vozeiro como Máis! Uma piscadela ao Máis alá! manoelantoniano? Os esoteristas sustêm que sim. O vozeiro critica duramente o mutismo galeguista perante a proclamação da República Galega em junho de 1931; dirigida por obreiros e jovens arredistas, “ao Partido Galeguista, honradamente, já não lhe cabia outra possibilidade que formar frente com aqueles que em Santiago e Ourense proclamavam revolucionariamente o Estado galego” (Ao nacionalismo da altura –como ao de agora- sucedia-lhe como às duas pessoas do relato de Borges, que “aguardam na rua um acontecimento e a aparição dos principais atores. Os acontecimentos já estão a ocorrer e eles são os atores”, mas não parecem percatar-se). Assinalam os mais avançados esoteristas que Cortázar era um bom conhecedor destes acontecimentos da terra da sua mulher, e que mesmo Casa tomada –relato imediatamente posterior ao de Bruja- seria uma parábola do “temor galeguista”. Mas esta já é outra estória.

Terra Ancha, 5/4/2014

Artigo publicado en Praza Pública

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