O ‘Tour de France’ como superprodução nacional

Carlos C. Varela

Quando em 1794 o abade Baptiste-Henri Grégoire apresentou o seu informe sobre a “Língua nacional” perante a Assembleia da República francesa, o resultado não podia ser mais desalentador para os jacobinos: seis milhões de “franceses” ignoravam complemente a língua nacional, outros tantos eran incapazes de manterem uma conversação nela, e apenas três milhões falavam o francés habitualmente. A partir dessa constelação promíscua de línguas e povos –bretão, valão, basco, bearnés, ocitano, picardo, catalão, normando, etc…- a maquinaria do Estado-nação acometeu, sob o relato mitológico dum suposto contrato de “identidade” por “cidadania”, um brutal processo de homogenização nacional. Da cartografia ao sistema nacional de ensino, pasando polo serviço militar obrigatório ou mesmo as competições desportivas, a invenção dos “franceses” precisou de todas as tecnologías de nacionalização das multidões disponíveis.

O já centenário ‘Tour de France’, a mais importante competição ciclista do mundo, é um caso originalíssimo de superprodução de consciência nacional através do desporto –retroalimentado, aliás, noutro elemento central na construção nacional francesa contemporánea: a banda desenhada de Asterix e Obelix, quem realizan o seu próprio ‘Tour’ en A volta às Gálias. Durante quatro semanas o pelotão multicor percorre o “hexágono”, pondo em valor a foça icónica do mapa e os seus limites, convertido, como diz Benedict Anderson, numa espécie de “logótipo nacional”. O traçado da corrida joga com a dialética identitária do nós/outros: quer em chave inter-nacional, quando arranca de Irlanda ou se adentra em Bélgica (como referentes de oposição); que rem chave regional, quando percorre territórios interiores que reivindicam o seu facto diferencial. Recordemos que em julo do ano passado as forças de segurança francesas realizaram o seu maior despregamento na Córsega, não por qualquer ameaça do FLNC, senão para escoltarem o ‘Tour’ na sua incursão –o vocabulário da corrida está inçado de metáforas militares- no território mais independentista do Estado.

De cara ao exterior, o ‘Tour’ projeta uma imagen perfeita da França, com o agro em plena colheita de verão, uns espaços e infraestruturas mui cuidadas, e as praias cheias de banhistas. Na minha infância velhos e nenos juntavamo-nos depois de comer na taberna, para vermos os finais de etapa de Indurain entre constantes mostras de admiração ao esfaltado das estradas francesas e a sua moderna maquinaria agrícola. Com certeza, o ‘Tour’ televisado não há-de ser alheio à estranha aparição, no folclore dos castros, de mouros que agasalhavam os meninhos labregos com bicicletas de ouro.

Durante a corrida a retransmissão da televisão francesa –que é a usada polo resto de canais- vai combinando a competição desportiva com imagens espetaculares das paisagens e monumentos, mostrados como valores nacionais para o público francés, e produtos turísticos para o estrangeiro. Sem o esforço que supõe ler Jules Michelet, fortalezas, castelos e igrejas vão pasando perante o espetador como um autêntico relato nacional “audiovisual”, adubado com breves resenhas históricas por parte dos locutores. Sem necessidade de discurso explícito, o ‘Tour’ materializa o pretendido ideal estado-nacional da “diversidade regional na unidade” inquestionada. De facto, as legendas da tele-retransmissão são monolíngues em francés –mesmo para as televisões internacionais- e sem a mais mínima concessão, nem folclórica, às línguas e toponímias autóctones. Ainda, o percurso do ‘Tour’ remata invariavelmente em Paris, a “capital nacional”, prévia passagem épica polo Arco do Triunfo e os Campos Elisseus.

Assim como algum antropólogo tem estudado o caminho-de-ferro como elemento central na construção da identidade estadunidense, o ‘Tour de France’, em versão lúdica e desportiva, é mais um elemento vertebrador do relato nacional francés, reativado simbolicamente ano após ano com novas gestas e campeões. O ‘Tour’ ajuda a imaginar a comunidade francesa. Mas como no ferrocarril do Oeste, o ‘Tour’ também bateu com a sua resistência indígena. Tornado campo de batalha, a volta ciclista à França é um cenário político no que muitas descobrimos a Europa dos povos rebeldes e solidários: à beira das estradas reunem-se centos de reivindicações ecologistas, sociais e nacionais, representadas por uma maré de bandeiras de tribos desconhecidas. Nas etapas dos Pirineus, os protestos contra a dispersão dos presos políticos já formam parte duma paisagem que nem o silêncio atronador dos locutores espanhóis pode ocultar. Algo parecido começa a acontecer na ‘Vuelta a España’.

(Artigo publicado en Praza)

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