“¡Aquelas festas, onde os ricos son espectadores!”

Carlos C. Varela

Dificilmente poderia imaginar Guy Debord até que ponto o progresso confirmaría as suas teses d’A sociedade do espetáculo; hoje, mais do que nunca, a vida afastou-se em forma duma representação. As novas tecnologias atomizaram a sociedade numa multidão de individuos, solitários mas juntos, que autorretransmitem em tempo real a sua vida para ninguém; o paradoxo dum solipsismo hipercomunicativo. “Ninguém baila, mas todos somos DJ’s”, dizem polos centros sociais madrilenos.

A propósito da televisão, Günther Anders descrevia com tristeza como a mesa, esse pequeño espaço domêstico para a convivencialidade alimentar, foi rota polo novo invento, ficando os comensais juxtapostos como num pelotão de fusilados polos raios catódicos. Rompia-se o círculo democrático para impor uma tiránica unidirecionalidade. O mesmo sucedeu nos torreiros da festa das paróquias galegas. Uma tomada cinematográfica de longuíssima duração mostraria a passagem dum círculo comunitário –bailes em roda, interações coletivas e múltiplas- a um pelotão de espetadores de orquestras. Há uns anos, numa reunião do clã das Brá, na Espenica, as matriarcas criticavam as novas orquestras, a transformação do festeiro em espetador, e a barreira que impunham uns palcos gigantescos. “A mim não che me ghustam nadita, essas são-che orquestas pa mirar, não pa bailar. Parecemos parvos pasmando cara elas”; “Aghora não há a diversão que havia antes, aquela aleghria. Aghora vás ao campo da festa pa mirar pa televisão”. As festas tradicionais eram teatro espontâneo no que todo o mundo era ator e atriz; a passagem a umas festas espetacularizadas, que separa a gente em protagonistas e espetadores, gerou uma resistência popular, especialmente intensa nas zonas de grande tradição entruidesca. Em Ginzo e Verim, onde já tradicionalmente as pantalhas e cigarrões tinham a função policial de perseguir os espetadores, a turistificação e programação do Entruido a partir dos anos 80 provocou uma forte oposição.

É fascinante ver como Castelao sentia as relações de poder nas festas populares no desterro espanhol, e via nas galegas um espaço de dignidade popular: “Eiquí a plebe non desperta con dianas e alboradas. Eiquí non hai foguetes, nin globos, nin gaitas, nin charangas, nin bailes populares. Nin tan sequera hai xigantes e cabezudos. ¡Ouh, aquelas nosas festas, onde os probes gozan máis que os ricos, porque aínda teñen inocencia de abondo para divertírense con honestidade…! ¡Aquelas festas, onde os ricos son espectadores!”.

(Artigo publicado en Praza)

30_12_12

 

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