Autodeterminantes

Carlos C. Varela

“Duas pessoas aguardam na rua um aconte-

cimento e a apariçom dos primeiros atores.

O acontecimento já está a ocorrer e eles som

os atores”

J.L. Borges, Outras inquisiçons

salvaterraNa última década produzui-se no movimiento popular galego umha silenciosa mudança de paradigma, que nom deu em novos “-ismos” nem em teorias em ediçom de luxo, senom em dúzias de pequenos projetos autogeridos nos mais diversos ámbitos: meios de comunicaçom comunitários, escolas, rede de centros sociais, cooperativas, etc. Por convicçom ou necessidade, os canais habituais da política fôrom saltados e sem esperar por permissom algumha, muitas pessoas pugérom-se maos à obra na defesa e construçom dumha Terra que nom podia aguardar mais. Perante um sistema económico que nem sequer permite viver dignamente as assalariadas, produçom cooperativa; perante as monoculturas da indústria cultural, música e editoras em mao comum; perante a expropriaçom e mercantilizaçom da biodiversidade, bancos de sementes autóctones. Umha constelaçom de iniciativas está a transformar, aqui e agora, espaços tam importantes para a vida como a criança, educaçom, alimentaçom, informaçom, desporto ou língua. Multiplicar estas iniciativas autónomas, e sobretodo densificá-las, é o repto que temos por diante se queremos sobreviver a esta barbárie generalizada.

Num contexto nom tam diferente deste, no meio dumha implosom da monarquia espanhola e com ventos constituíntes sulcando a nossa Terra, o militante galeguista Ramón Obella realiza umha proposta tam audaz que desborda a imaginaçom política da época. Obella propom iniciar a “autodeterminaçom funcional da Galiza” na década de 30: para além de qualquer eventual referendo pactuado com o Estado, cumpria ir-se dotando de todos os meios necessários para ir-se autodeterminando já no dia a dia. Meios que, em todo caso, seriam imprescindíveis mesmo conseguindo a autodeterminaçom formal. Ramón Obella estava a propor um processo constituínte ‘por baixo’; Ramón Obella estava a falar de zapatismo com meio século de antelaçom.

Mas para autodeterminarmo-nos é preciso superar o nosso estado de dependência, abandonar as paixons tristes, perguntarmo-nos com Spinoza “quanto pode um corpo?”. Zaid e Illich chamaram a atençom sobre como o capitalismo nos expropriou mesmo a consciência da nossa potencia, os nossos saberes-poderes comunitários ou as formas de ajuda mútua com as que resistimos à invasom do mercado. Para superar esta “incompetencia planificada” é imprescindível recobrar a memória deste corpo que chamamos Galiza. Recordar, por exemplo, que os sistemas de canalizaçom de água –que agora pretendem privatizar- nom lhas devemos em muitos casos ao Estado-providência, senom à autogestom vizinhal; recordar que a saúde pública nom foi nengum presente, senom umha conquista; ou que tampouco a Galiza tivo desde meados do s. XIX umha maior taxa de alfabetizaçom masculina graças a algum despotismo ilustrado, senom à criaçom comunal de escolas de ferrado.

Na comarca do Condado, o Festival da Poesia é o recordatório festivo do que pode o nosso corpo: a supervivência do monte em mao-comum como experiência de autogestom democrática; o potente movimiento vizinhal que durante a chamada Transiçom nasce enraizada nele e desemboca no municipalismo; umha efervescência de luitas anti-caciquis e em defesa da Terra; iniciativas culturais e desportivas; A voz do Condado… O Festival da Poesia é a prova do que podemos, de que somos autodeterminantes quando cortamos as cordas do teatro de títeres e nos tornamos atrizes e atores das nossas vidas.

Na Terra Ancha, 24 de julho de 2014

Este texto foi o Limiar da Antologia Poética do 28º Festival da Poesia no Condado

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