ENTREVISTA COM ATIVISTAS DO MOVIMENTO JUVENIL CURDO

Carlos C. Varela

Em setembro de 2011 um grupo de ativistas de TATORT Kurdistam viajou até o Curdistám Norte –territórios curdos sob administraçom turca- para conhecer de primeira mao a implementaçom do Confederalismo Democrático, a nova proposta autogestionária, municipalista e assemblear da resistência curda: um processo de autodeterminaçom desde baixo que visa construir umha “democracia sem estado”. As ativistas de TATURT Kurdistam realizaram umha série de entrevistas, recolhidas, em traduçom ao inglês, no livro Democratic Autonomy in North Kurdistan. The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology – in Practice. A entrevista aquí traduzida ao galego foi feita na cidade de Gewer a um grupo de moços de entre 16 e 26 anos. Nom fala nengumha moça porque nesse dia deslocaram-se à capital, Amed, para asistir a umha conferencia de mulheres.

curdos

Estamos mui contentes de poder falar contigo. Como afetou ao vosso trabalho o ‘Chamamento à Autonomia Democrática’em julho de 2011?

O ‘Chamamento à Autonomia Democrática’ significa que entrámos numha nova fase da resistência. A meta é agora construirmos instituiçons de auto-gestom popular, e alargar a fenda entre o povo curdo e o hegemónico estado turco.

Ao mesmo tempo o estudantado está a lutar polo direito a falar curdo nas escolas, sem que acarrete castigos disciplinários. O estudantado rejeita absolutamente o juramento diario “Feliz é quem se pode chamar a si mesmo turco”; e praticam outras formas de resistência. Estamos a intentar usar o curdo na correspondência formal, como petiçons e facturas.

Que se está passando nas aulas? Ouvimos algo sobre umha greve estudantil.

O assunto mais importante é a luta polo uso da língua curda. Estades no certo, recentemente tivemos umha greve estudantil de cinco dias, na qual participou quase o cem por cento do estudantado. Exigimos que as liçons se impartam em curdo e que os livros de texto abranjam a história e cultura curdas. A dia de hoje o sistema educativo curdo nega sistemáticamente a existência das curdas. Nas escolas primárias os Mestres batem nas crianças que nom falam turco.

Pessoalmente sofrim essa violência turca. Apenas fum capaz de expresar-me nessa língua no quinto curso. Por outra parte, as escolas exigem-nos que cantemos o hino turco e fagamos um juramento a Turquia. Quem o recusa é expulso. Mas o nosso comité estudantil está bem ancorado nas escolas, e temos um amplo rádio de açom.

O estado está a intentar adoutrinar as crianças curdas a umha tenra idade, para prever que se incorporem ao movimento de libertaçom. Separam-nos das suas famílias tam cedo como lhes é possível, requerem crianças nas zonas curdas para começar a escola pouco depois de cumprirem os quatro anos. Obviamente nós estamos por umha pronta e compreensiva educaçom, mas o estado turco, para apoiar a sua dominaçom, está a abusar das crianças. Para os nossos ativistas, o mais crucial movimento educativo tem lugar na prisom, mas obviamente as escolas estatais som um importante campo de batalha para nós. O estado fai nela a sua propaganda abertamente, enquanto nós a fazemos ocultos.

Que rol joga a mocidade no movimento curdo de libertaçom?

Pensamos que a mocidade é a vanguarda da mudança social. Som as menos inclinadas a aceitar as relaçons sociais existentes, e as suas mentes estám menos impresas com as estruturas de dominaçom do estado curdo. Aliás, por mor da realidade económica e social na qual medrárom –guerra, ocupaçom, repressom- sabem que tenhem pouco a perder, e é mais provável que fagam sacrifícios pola resistência.

Qual é a vossa relaçom com o estudantado ordinário?

Polo geral, muitos jovens que simpatizam com o movimento tenhem um alto nível educativo. Muitos estudam medicina ou outras carreiras. Apelamos os estudantes a pensarem no povo curdo e ajudar a construir estruturas comunitárias nas aldeias. Contodo preferemos que os nossos ativistas comprometidos tenham umha formaçom política melhor da que a que seguem num programa académico de estudos como advogados ou doutores. Umha estudante deve ter tempo para dedicar-se ao movimento.

Que instituiçons tedes, e como funcionam?

Auto-organizamo-nos num sistema concelhil, de acordó com os princípios desenvoltos polo Serok Apo (“Presdiente Abdullhah Öcalan”) no Confederalismo Democrático. Excluimos um sistema presidencial. Até há pouco, a estrutura institucional juvenil fazia parte oficialmente do partido, mas hojee m dia funciona autónomamente. Os movimentos juvenil e de mulheres som os componentes mais avançados do movimento curdo de libertaçom, e também implementamos o Confederalismo Democrático mais amplamente. Todos os bairros e aldeias ao redor de Gewer tenhem concelhos juvenis, cujos representantes também trabalham nos concelhos do povo. A mocidade está a planificar a transformaçom de todo Gewer numha comuna autogerida. Dividimos a cidade em vinte e sete sectores e estamos a construir concelhos para cada um. A mocidade nom só é o mais importante factor na sublevaçom, a Serhildan (nome que recebe desde a década de 1990 a resistência curda), e as açons de resistência nas ruas, senom em todas as áreas da vida social aquí em Gewer.

O trabalho juvenil adopta três formas: a cultural, social, e a resistência. O nosso trabalho cultural consiste principalmente em fortalecer as tradiçons locais e desse modo fortalecer a consciência popular. Organizamos performances teatrais sobre tomas políticos e praticamos o tradicional dengbêj curdo (umha espécie de regueifa). O nosso trabalho social abrange, entre outras cousas, o fornecemento de cuidados da saúde. Após as manifestaçons, organizamos grupos de estudantes de medicina que atendem as vítimas dos ataques policiais. Ajudamos a gente joven com desporto e aulas particulares. Estamos a trabalhar no empoderamento económico através de coletivos e cooperativas, com o objetivo de fortalecer a auto-organizaçom popular e também tornar possível a independência das nossas instituiçons face o estado turco.

O movimento curdo de libertaçom atingiu um grande sucesso nos últimos trinta anos. Tem-se despertado umha consciência curda, e nom vai volver adormecer-se rapidamente. Atualmente estamos entrando numha nova fase da revoluçom através da construçom da comunas, coletivos e cooperativas. A auto-organizaçom popular da economia visa colocar as bases para umha mudança integral das relaçons sociais imperantes, e tornar compreensíveis ao povo perspectivas que vaiam mais lá da guerra, pobreza, e ocupaçom. O movimento está a construir cooperativas aldeas, juvenis e de mulheres. O trabalho juvenil ganhou muito dinamismo desde 2007. O nosso trabalho tornou-se mais público, o que nos facilita chegar às diferentes necessidades da gente. Os diferentes níveis de autogestom permitem-nos entrar no processo de organizaçom mais fácilmente. Especialmente o trabalho a nível de vizinhança local resultou-nos ser mui mobilizador.

Falas de auto-defesa. Que é o que entendes por isso?

A mocidade é a vanguarda da Serhildan. Non só praticamos a auto-defesa militante contra os ataques policiais durante as manifestaçons, também trabalhamos ofensivamente contra as instituiçons do estado turco.

Que tipo de cooperativas tedes aquí em Gewer?

Basicamente temos cooperativas ganadeiras e agrícolas. A mocidade ajuda os adeaos com as granjas. Os nossos amigos que som engenheiros e veterinários podem ser úteis. No pasado temos ajudado na recoleçom de ervas nos campos, mas agora o exército turco usa armas químicas, e a recoleçom já nom é umha opçom. Também apoiamos as cooperativas por outras viais. Nom temos as nossas próprias cooperativas juvenis porque nom queremos que a gente nova forme relaçons polo dinheiro. Devem ser a vanguarda e motor da resistência. Polo que sempre que seja possível, os nossos quadros som sustentdos económicamente polas suas famílias.

Escuitamos que há muita droga circulando por Gewer. Quais som as vossas consideraçons sobre isto?

É um grande problema. O Estado está a intentar atraer a gente joven longe da resistência enganchando-os às drogas. Amigos meus tenhem visto a polícia distribuindo heroína e drogas sintéticas aos moços. Depois exploram a sua dependência e miséria económica usando-os como chivatos. A prostituiçom é outro crescente problema. Em Gewer 3.500 moços som drogaditos. Um milhar deles som ainda crianças. O movimento juvenil curdo devece por construir umha clínica de desintoxicaçom, mas carecemos de meios. Agora estamos a cuidar cinquenta moços drogopendentes e estamos a intentar afastá-los das drogas através da açom social. Esses moços necessitam terápia, polo que precisamos financiamento para poder ajudar-lhes. Finalmente intentamos integrá-los nas instituiçons políticas e sociais curdas, nom os abandonamos. Umha boa maneira de ajudar-lhes e construíndo umha clínica de ré-habilitaçom aquí, em Gewer.

Como é a vida para a gente joven em Gewer?

A guerra é umha condiçom rutinária aquí, configura a gente desde que nascem. Esta província viu muitas operaçons militares, em parte porque a resistência aquí sempre foi mui forte. A nossa geraçom medrou nesta guerra. Todos nós temos algum familiar que foi matado; alguns fomos traumatizados polos militares turcos. Quando eu tinha seis anos, o exército atacou a minha aldeia às três da madrugada. Os soldados aparecêrom às portas de cada casa e levárom-nos à praça da aldeia, humillando-nos. Polo tanto todos nós fomos desde a infância “Apocus” (crianças de Abdullah Öcalan). “Biji Serok Apo!” (Longa vida ao Presidente Öcalan!) som as primeiras palavras que muitas crianças pronunciam aquí.

Estám as instituiçons juvenis abertas a todas as moças?

Sim, qualquer umha pode unir-se. Nós nom temos problemas de recrutamento, por volta de 90% da populaçom de aqui simpatiza com o movimento. Case cada família temu m mártir nas suas fileiras. Enviamos delegaçons masculinas e femininas ao concelho da cidade. A mocidade aquí en Gewe tem as suas próprias unidade de auto-defesa que trabalham de forma independente e nom precisam tutelagens de homens adultos.

Como recrutades?

Temos diferentes maneiras. Conseguimos contatos através dos concelhos de distrito, e também em famílias patrióticas e socialistas. Nós oferecemos atividades culturais, desportos, e educaçom para a saúde, assim como formaçom política. Em todo o nosso trabalho quotidiano, estamos a intentar construir relaçons de confiança com os nossos pares.

Quantas mulheres e moças participam no movimento juvenil? Qual é a vossa relaçom com o movimento de mulheres curdas?

Junto com a mocidade, as mulheres tenhem o maior nível organizativo do movimento curdo, e as mulheres jovens som também as mais fortes, a parte mais conscienciada do movimento juvenil. As moças organizam-se principalmente conjuntamente com os moços, mas por causa da influência islámica na nossa sociedade, temas como a saúde, higiene e sexualidade tratam-nos separadas dos homens. E porque as ideias conservadoras estám ainda amplamente arraigadas na sociedade curda, amiude só as mulheres podem contactar outras mulheres, embora isto seja cada vez menos um problema entre a gente joven. Discussons sobre o patriarcado e a opressom das mulheres som centrais para a nossa ideologia e umha matéria central no trabalho formativo.

Qual é a relaçom entre sexos no vosso movimento?

No movimento juvenil, homens e mulheres organizam-se em comum. A proporçom é por volta de cinquenta-cinquenta. As mulheres entre nós som militantes, autónomas e radicais.

A vossa regiom é bastante conservadora. Intentou o estado algumha vez “pacificar-vos” com o Islám, por exemplo, com a ajuda do movimento de Gülen (islamista e nacionalista aliado de Erdogan até 2013)?

Gewer está localizada num lugar importante geoestratégicamente, e a resistência local aqui é forte. Por conseguinte o governo do AKP e o movimento de Gülen estám a intentar usar o Islám como arma contra o movimento das mulheres. Mas os seus esforços para assentarem-se fracassárom, igual que em Êlih e outras cidades curdas. Aquí há um centro de islamistas radicais que tenhem intentado influenciar a opiniom popular contra o movimento curdo. Mas a gente nom acredita neles: som em geral religiosos, com certeza, nas também experimentam a opressom em tanto que curdos, polo que nom querem ouvir falar de Gülen ou Erdogan. As famílias estám ainda estruturadas conforme normas feudais, mas nos últimos anos mudou muito, em parte pola intensidade do movimento de libertaçom nesta regiom. Há vinte anos era impensável para umha moça ir estudar a umha cidade turca, mas as moças de hoje já nom tenhem tal problema. Especialmente nas famílias socialistas e partidárias de Apo, o problema foi mais ou menos superado.

Porém como movimento nom nos opomos ao Islám ou outras religions. Rejeitamos a seita de Gülen e as suas ideias sobre um grande imperio otomano. E opomo-nos às estruturas feudais que permanecem nas famílias. Por exemplo, quando proibem as crianças irem à escola por razons “religiosas”, nós estamos contra isso. E opomo-nos ao Islam radical, porque é irreconciliável com os valores dumha ideologia democrática. Mas fundamentalmente estamos abertos a todas as religions. A religión é um assunto privado; o que é importante para nós e a ideologia democrática.

Ouvimos que muitos ativistas do movimento juvenil estám detrás das reixas. Podes-nos dizer algo sobre isto?

Nos últimos seis meses, 1.372 amigos do movimento juvenil fôrom detidos, e mais de 3.000 em total estám agora em prisom, cumprindo sentenças de seis anos a perpétua. Estamos a intentar contactarmos com as suas famílias e advogados, mas a repressom do estado curdo costuma dificultar isto. Trabalhamos estreitamente com a Associaçom de Direitos Humanos (IHD) e outras organizaçons da sociedade civil. As condiçons de vida nos cárceres som amiude atrozes, provocando que muitas pessoas desenvolvam doenças sérias e de por vida ameaçantes.

Muitos dos presos fôrom detidos a umha idade mui joven e anos depois deixam o cárcere como quadros formados. A formaçom carcerária é altamente estimada polo povo curdo, especialmente pola mocidade. Alguns queixam-se retranqueiramente de que ainda nom fôrom detidos e polo tanto assitido à “Universidade Curda”.

Qual é a situaçom das ativistas presas?

Durante a pasada década, a gente joven foi rutinariamente sinalada pola repressom. Mas nós empregamos o tempo em prisom para formar-nos a nós mesmos. O analfabetismo permanece como um sério problema aquí; impede-nos a habilidade de ensinar o movimento de libertaçom curdo como teoria. Antes, em 1994, quando eu tinha quatorze anos, fum arrestado e passei sete anos em prisom. Fum retido numha grande sala junto com sesenta pessoas, e agrupados juntos, fomos capazes de dar-nos umha educaçom e ter atividades sociais como futebol e bailes.

Mas a introduçom das celas de isolamento ‘F-type’ tornou todo isso impossível. O pessoal da prisom nom tortura físicamente a gente tam frequentemente como costumavam, mas a tortura psicológica do confinamento solitário é muito mais duro de suportar. A chamada “tortura branca” visa destruir o indivíduo e o seu espírito. Antes a meta era justamente destruir o teu corpo. Metendo-nos entre quatro paredes fora do exterior, a mente paga umha terrível portagem. Só as nossas convicçons políticas e a nossa crença na revoluçom curda nos ajudam a suportá-lo.

Pessoalmente, o tempo que passei na prisom ‘F-type’ foi o pior que eu tenha experimentado. Os curdos somos gente mui sociáveis. Nós raramente estamos sozinhos, passamos maior parte das nossas vidas com irmaos e irmás, amigos e família. A solidom é onerosa para nós. Mas como muitas ativistas curdas estám em prisom, essas celas de isolamento estám-se a saturar também, e até quatro pessoas ocupam umha cela. Isso torna possível o trabalho formativo, mesmo mais intensivo do que o era em grupos mais grandes. Afinal é um benefício das detençons maciças do estado turco.

Na esquerda alemá, persiste o preconceito de que o movimento de libertaçom curdo é nacionalista. Como responderias a isso?

Nom nos consideramos a nós mesmos nacionalistas. Somos socialistas internacionalistas e fazemos parte do movimento revolucionário mundial. Sentimo-nos conectados ás lutas de outras partes do mundo, das subleveçons no Norte de África à revolta anarquista da mocidade em Grécia. Mas de momento estamos, em tanto que curdos, sob o ataque do estado turco, e polo tanto estamos obrigados a lutar nesse terreno. O socialismo e a luta anticapitalista som componentes importantes da nossa ideologia, mas nestes momentos a nossa opressom como curdos é o nosso principal problema. E se bem somos socialistas, a sociedade curda está tradicionalmente organizada mais bem em formas anarquistas.

TATORT Kurdistan. Democratic Autonomy in North Kurdistan. The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology – in Practice. Porsgrunn: New Compass Press. 2013, págs.. 89-98. (Traduçom ao inglês de Janet Biehl)

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