Biblioteca de Fanto Fantini

Carlos C. Varela

envelope gato

“Trazede-me livros!”, berrava Alexandre Bóveda à sua família agarrado à janela do improvisado cárcere da Normal de Ponte Vedra. Livros contra muros, uma guerra em curso: eis a luta de presas e escritoras –como Irvine Welsh, o autor de Trainspotting, um dos livros de referência de aquém-muros- contra a pretensão do governo britânico de prohibir a introdução de livros nas cadeias; ou o periplo jurídico de Xabier Balerdi, preso político basco, para poder ler um prisão um livro que se vende legalmente na rua, Bortxaren Kontakizunetik, Kontakizunaren bortxara. Mas, que se pode acrescentar sobre a bibliofobia de um Estado fundado nas fogueiras de livros de Granada?

No cárcere de Villabona a ceiva sistemâtica de livros para resistir começou após comprobar o enorme sucesso que tivo entre os presos “sociais” o livro de Owen Jones traduzido ao espanhol como Chavs. La demonización de la clase obrera. Essa foi a mugica. Depois, uma carta à editorial madrilenha Capitán Swing, como quem lança uma garrafa ao mar: “enviades-nos livros como o de Owen Jones?”. E a mensagem engarrafada, atirada desde o arquipélago penitenciário, cruzou o oceano de betão e obtivo resposta amiga. Desde começos de ano a nossa biblioteca invisível recebe novos livros-ferramenta: um novo exemplar do Chavs; Los filántropos en harapos de Robert Tressell, elogiado por Orwell como o grande romance do proletariado britânico, e que leu em primeiro lugar um rapaz de ideias claras (um dia apresentou-se no pátio: “meu avô era máquis e matou-no a Guarda Civil; meu pai participou de guaje nas greves mineira dos anos 1960; ti és dos meus”); o demoledor livro de Matt Taibbi, La brecha. La injusticia en la era de las grandes desigualdades económicas; Espectros del capitalismo de Arundhati Roy, a quem precisamente o alunado do Rosalía de Castro de Compostela vem de outorgar o seu premio Bento de Spinoza; Malcolm X, una autobiografía contada por Alex Haley, junto com El caso Tuláyev de Víctor Serge e La historia falsa y otros escritos de Luciano Canfora, conforman finalmente uma boa trilogia carcerária: a cadeia como tomada de consciência, em Malcolm X; os presos revolucionários das purgas da URSS em Serge; e a terrível briga de Gramsci no cárcere contra quem pretendiam relegá-lo ao silêncio das estátuas no ensaio de Canfora.

Muitas graças à Capitán Swing.

Cárcere de Villabona, 21 de junho de 2017

Advertisements

Fragmentos de correspondência carcerária

Carlos C. Varela

sobre praia

A Revolta, 25 de janeiro de 2016

“(…) contárom-me tamén que inda tenhem alcalde de bairro, mas que desde que ghoverna o PP, já nom o escolhem mais as vizinhas. A última vez que o escolheram eles, fora um domingo à saída da missa (nom lembro o ano, pensó que me digeram 85), que só se apresentaram Pinho e Louzao (o Pinho vem polo bar) e ganhara Pinho por muita diferença. Pinho é socialista e conta-me mui orgulhoso como conseguiu que muitas mulheres d’ali, quando sacarom o decreto lei para que as amas de casa puideram cotizar pola agrária, e estava el de alcalde de bairro, tiveram agora a paga e muitas cousinhas mais (…)”.

C.P. Cáceres II, 10 de fevereiro de 2016

(vem o recorte duma notícia de Berria “Isaac Xubin itzultzaile galiziarra saritu du Etxapare instituak”, e a tradução num post-it.).

“(…) ¡Ah!, en relación con el fuego, me viene a la mente el proyecto de soberanía energética de Bera (Nafarroa), que tiene que ver también con la gestión sostenible de los bosques; puede que a tus amigos comuneros les interese. Han cambiado todas las instalaciones municipales de calefacción de gas y gasoil por una común de “pelet”, calentando desde un centro único el polideportivo, la escuela, el ayuntamiento… Además, hasta ahora compraban la madera (“pelet”) a otras regiones de Nafarroa pero ya están pensando en ser autosuficientes, cambiando el sistema tradicional de reparto de madera comunal por una cooperativa forestal.

(…) Alguien ya dijo que es más fácil hacer la guerra que construir la paz, y ¡cuanta razón tenía!; me doy cuenta de que a pesar de la dureza de la lucha armada, para algunos es más cómodo seguir una inercia en el resistir que en el innovar, probar otras dinámicas, y el abrir la mente. Yo diría que es una comodidad mental, Carlos, pues tú bien sabes que ¡esto de cómodo no tiene ni ostias! (…)”.

Oostvorne, 6 de março de 2016

“(…) deunos tempo de visitar Praga e Budapest. Nesta última cidade, aparte de ir aos baños, como facían os meus avós en Carballo, vimos unha catedral na que teñen enterrados, un a cada lado do altar, ao primeiro rei de Hungría e a Puskas, compartindo honras!!

E falando de fútbol (voetbal en holandés, vou aprendendo!) creo que podemos establecer un certo paralelismo entre o Encrobas e o Dépor. Ambos fixeron unha primeira volta de película, pero na segunda vaia por Dios…

(…) cando morreu miña avoa, que eu estaba no tanatorio con un irmán dela, aparece outro paisano e dille:

-“A ver, Domingo, cando montas ti unha fesa destas?”

E dille el:

-“Se queres facémola os dous xuntos, que aínda nos fan precio”. Viva o humor negro chaval!”.

Vigo, 9 de março de 2016

(Uma aquarela do Merdeiro do Berbês!)

Castro de Marçoa, 30 de março de 2016

(Com uma fotografia histórica da Associaçom Reintegracionista de Ordes)

“(…) Estive em Loureda a saudar à tua mae, mas nom estava, voltarei outro dia… Boa primavera!”.

Lycée Horticole de Blois, 5 de abril de 2016

“(…) Dizia-che que tinha medo de encontrar-me umha França a meio camino entre Houellebecq e o Germinal de Zok, mas acho que ia bastante desencaminhado (…). O sítio em que me encontró é umha chaira enorme, atravessada polo imenso Loira (La Loire, em feminino, em francés). Vale de Loira de longos céus, pensó lembrando a Terra Chá de Manuel María na voz de Suso Vaamonde (…)”.

Vila de Grácia, 8 de abril de 2016

“(…) está forte o Dépor e as equipas galegas em geral. Eu agora co futebol e o Barça ando algo desconectado. Na Grácia dende fai dous anos estamos a seguir o Europa, equipa do nosso bairro e umha das equipas fundadoras da Liga. Fundamos un grupo de siareiras, chamamo-nos Eskapulats, em referência ao escapulario que levamos na equipaçom. Tentamos nom entrar no rolho ultra de garrulismo e machismo. Buscamos a reciprocidade entre a rua e a equipa levando os problemas do bairro e do país à grada”.

Quistiláns, 16 de abril de 2016

“Tenho o meu avó a dar voltas pola cozinha adiante e a mirar polas janelas cada dous por três, dizendo alternativamente “chove, caralho” e “chove, cona” com umha cortina na mao. Cada dia entendo-o um pouco melhor, porque me estou a tornar completamente dependente de meteorología como ele. É alucinante como me muda o estado anímico conforme varia o tempo: sinto-me identificado com esses galos de Barcelos que compram as velhas na feira de Valença e que ponhem de par do televisor, aí a mudar de cor conforme chova ou venha o sol…”

Cadernos de 2016

Carlos C. Varela

pinchacarneiro

ÍNCLITA ORDEN DEL TOISÓN DE ORO

Enquanto na Galiza estão a deter a independentistas pola sua atividade política, na televisão española anunciam que a infanta Leonor vem de receber o colar da Ínclita Orden del Toisón de Oro. Se quadra havia rir Cunqueiro, quem deixou escrito que a dita Ordem fora “fundada, como sabem, porque um duque de Borgonha encontrou na cama uns pelinhos loiros caidos de certa parte da sua amante, embora depois para a sua emblemática recordasse a aventura de Jasão à procura do Velhocino” (1). E é que ainda vai ter origens certas a mui ordense expressão “cago na cona da reina!”, usada em ocasiões como a de hoje.

(1). Álvaro Cunqueiro, Fábulas y leyendas de la mar, Barcelona, Tusquets, 1986, p. 207.

PORNÓGRAFOS

A pornografía moderna nasce como um género de oposição ao absolutismo, vinculada ao libre pensamento e à heresia, à filosofia natural e às ciencias; mesmo Diderot foi encarcerado por pornógrafo em 1749. Ao parecer a condena da pornografia não tinha tanto a ver com a sua explicitação do erótico –numa forma, aliás, terrivelmente machista- como com a reivindicação da autonomia, do “sexo polo sexo”, desse ámbito que Kant definia como a coincidencia entre fins e médios. A emergência destes espaços de autonomia indignava por igual a esquerda e direita, que também combaterão a aparição de uma vanguarda artística que proclamará a “arte pola arte”. “Não em balde” –diz Jordi Claramonte- “os experimentos musicais do joven Shostakovich foram qualificados unánimemente polo New York Times e polo Pravda, singular gesta, como pornografía”. (1).

Com o golpe fascista uma vaga anti-pornográfica percorreu a Galiza. No 14 de agosto de 1936 apareceu no Boletín Oficial de la Provincia uma ordem do tenente coronel da Guarda Civil Florentino González Vallés, delegado de Ordem Pública na Corunha: “Las bibliotecas de todos los centros clausurados serán eliminadas, procediéndose a la quema de toda la prensa, libros y folletos de propaganda de ideas extremistas, así como la de temas sociales y pronográficos (…)”. Não se salvará da cruzada anti-pornográfica Vicente Díaz Veiga, a.k.a. ‘Carro de Lídia’, figura extraordinária do obreirismo ferrolão (2). Carpinteiro de profissão e emigrante retornado, Carro de Lídia escrevia sobre assuntos rurais na imprensa obreira. Refugiado dos fascistas na Cova de Ponte Prados, entre as praias de Baldovinho e Pantim, é detido pola Guarda Civil em junho de 1937, quando já levava um ano vivendo ali a base de marisco, peixe e verduras. No registro da furna incautam-lhe as seguintes cousas:

-Ferramentas de trabalho.

-O rascunho dum poema contra o exército e a Igreja.

-Um projeto de “Município Livre de Baldovinho”.

-Vários exemplares da revista valenciana Estudios.

Esta última publicação, mui popular entre o movimento libertário galego, e de teses naturistas, foi tomada polo Ilustríssimo Juiz por pornografia. Enviado ao Castelo de S. Felipe, Carro de Lídia livra-se da pena de morte, que lhe é comutada pola prisão perpétua. Antes de sair em liberdade em 1944 passa polos penais de São Sebastião, Burgos e Corunha. Fora dos muros retoma a colaboração com a resistência galega, sendo detido novamente por mor dum delator. Cumprirá novamente condena no cárcere do El Dueso entre 1949 e 1953, tempo que aproveitará para escrever trabalhos como La crucifixión del labriego, autoeditado em 1965.

(1). Jordi Claramonte, Lo que puede un cuerpo. Ensayos de estética modal, militarismo y pornografía, Murcia, Cendeac, 2009, pp. 65-66.

(2). Eliseo Fernández, Obreirismo ferrolán, Vigo, A Nosa Terra, 2005, p. 76 e 159.

O COMUNISMO HÁ CHEGAR DE BICICLETA

O I Congreso Nacional de Ciclistas Vermelhos tivo lugar em Itália num 24 de agosto de 1913. Os obreiros lá reunidos elevaram a bicicleta à categoria de “veículo do povo”, muito antes de que o carro privado aparecesse como primeiro objetivo da emancipação consumista do proletariado. Entre as conclussões do citado congreso pode-se ler: “Nos periodos especiais (eleições, agitações, greves), os ciclistas vermelhos assegurarão os meios rápidos para a comunicação e a correspondencia (…). As bicicletas vermelhas serão a vanguarda da nossa propaganda e o nosso movimento, o meio polo que os nossos afiliados de todas as comarcas permanecerão em contato, em tempos de paz e de guerra”.

Tal foi o caso de José Pérez Sanmartín, latoeiro noiês que morava na vila de Ordes quando o franquismo trouxo o terror. Segundo o informe da Delegación de Orden Público Pérez Sanmartín participou da defesa da república em Ordes “con bombas de mano y en el momento de ser detenido, le fueron ocupadas dos de ellas que tenía ocultas en un monte; además sirvió de agente de enlace entre los grupos de los rojos que tenían cercada la villa de Órdenes; yendo montado en una bicicleta para transmitir las órdenes con mayor rapidez; vino a Santiago y luego marchó a La Coruña, como jefe de grupo, para hacer frente al ejército (…)”.

O ciclista vermelho de Ordes foi fuzilado no cemitério de Boisaca no amencer do 8 de fevereiro de 1937, junto com os seus companheiros que agora são conhecidos como os “11 de Ordes” (1).

(1). Manuel Pazos Gómez, A Guerra silenciada. Mortes violentas na comarca de Ordes 1936-1952, Ordes, A. C. Obradoiro da História, 2011, pp. 50-51.

CICLONAUTAS

Outras das conclussões de aquele congreso italiano de ciclistas vermelhos era a  de que “o desporto é um problema gravíssimo, que desvia a atenção dos obreiros e especialmente dos jovens. Distrai-os do estudo dos problemas sociais e afasta-os das associações políticas”. Tal e como faziam os críticos do “sexo polo sexo” ou da “arte pola arte”, os ciclistas vermelhos condenavam sem paliativos “esses jovens mais desejosos de ler La Gazetta dello Sport que o Avanti!, esses jovens preocupados só por fazer o amor e correr em bicicleta”. O ciclismo polo ciclismo resultava pronográfico. Há que deslocar a olhada para o feminismo se se quer achar uma valorização positiva da bicicleta em si.

Segundo a sufragista Elizabeth Stanton “as mulheres viajamos, pedaleando, cara ao direito de voto”, e para Susan Anthony “a bicicleta fijo mais do que nada e mais do que ninguém pola emancipação das mulheres no mundo” (1). Com a nova viatura podia-se viajar até quatro vezes mais rápido do que caminando, facilitando uma grande autonomia e liberdade de movimentos, superando as fronteiras da cidade burguesa e a sua moral. O seu uso, aliás, justificou que as mulheres se pudessem desprender de prendas-cárcere como o corsé e as saias incômodas, e em nome da liberdade de pedaleio chegou também a liberdade de pensamento: em calças desportivas foi, com certeza, mais fácil imaginar a emancipação feminista (2).

Assim as cousas cada pedalada foi acompanhada pola sua correspondente condena. Já o famoso criminólogo Cesare Lombruso acusara a bicicleta em 1900 de ser “o veículo mais rápido no camino à delinquência, porque a paixão polo pedal arrasta ao roubo, à estafa e ao atraco”; ainda, os seus colegas descreviam na Literary Digest a doentia “cara de ciclista”. O principal reproche anti-ciclista vinha, como sempre, do lado dos escudeiros da moral sexual. Num dos seus últimos contos Neira Vilas recorda a condena, em plena missa, que levou uma moça por passear de bibicleta excitando o crego (3). Em La moralidad pública y su evolución, um livro editado em 1944 polo franquismo de forma reservada, só para as autoridades do regime, temia-se pola 2perjudicial influencia que la generalización del uso de la bicicleta ha producido en orden a las excursiones lejos de la ciudad” (4), que as parelhas novas aproveitavam para terem algo de intimidade. Mas a bicicleta não só conduzia rápidamente aos territórios do pecado: era um pecado em si. A fricção da entreperna feminina com o silhim preocupou, e muito, a toda a congregação da polícia sexual, formada por médicos, sacerdotes e demais gente de ordem. Tão indecoroso roze, prognosticavam os científicos, havia producir histérias, infertilidades e abortos, até deixar as mulheres loucas polo prazer de pedalear.

(1). Tomei estas citas de Eduardo Galeano, “Alarma: ¡Bicicletas!”, Mujeres, Madrid, Siglo XXI, 2015. Seguro que se podem encontrar muitas mais referências em Biciosos, o libro de Pedro Bravo.

(2). Philipp Blom, Años de vértigo. Cultura y cambio en Occidente, 1900-1914.

(3). Xosé Neira Vilas, Romaría de historias, Vigo, Galaxia, 2015, p. 65.

(4). La moralidad pública y su evolución, Madrid, edição reservada, 1944, p. 83. Cit. Em Carmen Martín Gante, Usos amorosos de la post-guerra española, Barcelona, Círculo de Lectores, 1988, p. 235.

AS FRICATRIZES DA AMAIA

Os rapazes quando saem de “caralhada” falam de ‘meter’, ‘pinchar’, ‘cravar’, etc., enquanto as moças –polo menos as da Amaia- falam mais bem de ‘frotar’ explicitando as diferentes mitologias sexuais que articulam os desejos de homens e mulheres. O temor à frotação com o silhim de bici é só um capítulo mais da longa história masculinista do temor à fricção feminina, isto é: à autonomia sexual das mulheres. O silhim e o clítoris tornavam prescindíveis os homens, numa forma de prazer que Freud aginha rebaixará a “imaduro”. Quando a começos do s. XVII Thomas Bartholin revisa as Institutiones anatomicae, propõe chamar ao clítoris “despreço dos homens”, verbalizando um pesadelo masculino que pairará caladamente tras os intentos europeios de masificar a cliteridectomia nos séculos posteriores, uma empresa pretensamente científica. Nesse período a literatura médica –mais tarde ampliada pola etnográfica- enche-se de monstruosas gravuras e fotografias de mulheres dotadas de clítores prodigiosos, capazes de intimidar o mais orgulhoso pénis. Fala-se então do tribadismo, prática já documentada polo granadino Al-Hassan ibn Muhamad al Wassan, mais conhecido em Europa como Leão o Africano. Na sua Cosmografia e geografia de África, publicada póstumamente em 1550 como Da descrição de África, fala das fricatrizes de Fez, uma sorte de bruxas possuidas –segundo eles- por yinns, e que gozavam fregando-se entre elas, inconscientes precursoras das ciclistas.

AS GRANDES DESCOBERTAS

1492: Cristóvão Colombo dá início a uma tradição europeia consistente em que homens, igualmente europeios, imponham os seus próprios nomes aos territórios conquistados no novo continente, visto como uma mulher que seducir, dominar e civilizar.

1559: Um anatomista italiano de igual nome que o almirante, Realdo Colombo, reivindica-se descobridor de um novo territorio no continente feminino: o clítoris. “Como ninguém observara antes esta projeção e o seu conteúdo, se se me permite dar nome ao que eu mesmo descobri, proponho baptizá-lo como “amor ou dozura de Vénus”. Seguirão-no na empresa outros como Gabriel Falopio, descobridor de outra ilha feminina que pujo no mapa com o seu nome: “as trompas de Falópio”.

De Colómbia à trompa de Falopio, da lógica sexual do colonialismo à lógica colonial da anatomía, do continente a dominar como uma mulher à mulher a conhecer como um territorio de conquista… Assim foi que as mulheres nahuas passaram de ter zacapilli e zacapilcualt a não ter uma difuminada “mi parte”.

FRAGMENTOS DUM TRATADO DE DEMONOLOGIA (I)

X.R.Mariño Ferro nota uma diferença fundamental entre a representação do demo e das bruxas que se fazem os inquisitores e a cultura popular: os primeiros apresentam uma maldade absoluta, sema restas, enquanto os relatos populares matizam este mal teológico com contos de diabos mais bem parvos, que os astutos labregos sabem vencer (1). É o caso, por exemplo, dos demos que pretendem engañar o camponês no moinho e que, sem decatar-se, rematam trabalhando para o labrego. Creio que havia de gostar muito destas histórias esse grande revolucionário de incógnito que foi G.K. Chesterton, pois tal e como deixou escrito, “os contos de fadas são verídicos não só porque nos explicam que os dragões existem, senão também porque nos explicam que se podem vencer”.

O TRACTOR DE BENDILHÓ

Na cena final do Bienvenido Mister Marshall um tractor paraquedista pousa suavemente numa leira, cumprindo o sonho americano dum concelho espanhol de após-guerra. A tragicomedia de Berlanga representava um povo afundido na miséria, completamente despolitizado polo shock da violência fascista, e cuja única esperança era a chegada do salvador americano, preparada de uma maneira mágica que fai recordar os cultos cargo de algumas ilhas do Pacífico, cujos habitantes dispunham de “pistas de aterragem” para a chegada do deus da Coca Cola. Mas nem sempre o povo foi ese conjunto desarticulado de sofrimentos, despojado de toda potência.

Na Primavera de 1936 os cinquenta e três vecinhos de Bendilhó (Quiroga) repartirom as terras do cura –fugido após receber uns anónimos (1)- entre todas as casas, converterom a reitoral no local do seu sindicato, e solicitaron à CNT colaboração para mercar um tractor para os trabalhos coletivos da aldeia, eregida em Comuna Agrícola Libertária (2). Deu-lhes apoio o Sindicato da Construção da Corunha, que propujo ao Comité Regional Galaico que todos os federados contribuissem para a compra do tractor de Bendilhó por prorrata, projeto cuja materialização só impediu o golpe militar, quando já juntaram vinte mil pesetas (3). Sem aguardarem por nenhum Mister Marshall, Estatuto de Autonomia nem Presidente da República. Sem cultos cargo à espera de messias eleitorais.

(1). Estes anónimos fôrom um género que contou com magníficos cultivadores, como demonstra este de 1788: “(…) párroco de Camanzo, párroco de los demonios, tu acabas ós probes, que lle vendes o que tén para comer; tu non nos vestes, como fai o de Piloño, tu non lles das ferrados de grao…; tu acabas ós probes dos fregueses, cos escribanos queres acabalos de todo… Pois si non despachas ós escribanos, e si non dis a misa pola mañá ás sete, e se non mudas de vida, juramos a Dios que has de amencer queimado…; tamén te decimos que te habemos de queimar as medas e os palleiros… Non che firmamos porque non queremos i outros porque non sabemos…”. Cit. Em C. Burgo López, Un dominio monástico femenino en la Edad Moderna. El monasterio benedictino de San Payo de Antealtares, tese doutoral, Santiago de Compostela, 1985, II, p. 985.

(2). “Los pequeños grandes problemas: Los campesinos de Bendilló (Lugo), desean ensayar el Comunismo Libertario”, Solidaridad nº 43, Corunha, 18 de abril de 1936.

(3). Conta-o Dionísio Pereira em A CNT na Galicia 1922-1936, Briom, Laiovento, 1994, p. 167.

O xoves 26 de Novembro, ás oito da tarde, no Salón de Actos da Facultade de Filosofía de Compostela, presentación-lanzamento público de ‘Diários’

Presentación de 'Diários' de Carlos C. Varela

O xoves 26 de novembro, ás oito da tarde, presentarase ‘Diários’, de Carlos, un libro editado por Através. Será no Salón de Actos da Facultade de Filosofía da Universidade de Compostela (Praza de Mazarelos).

Gustaríanos moito que se enchera o salón, que toda a xente que aprecia a Carlos ou que non o coñece persoalmente pero sinte interese polo seu caso, ou polo que escribe ou polo que debuxa, estivera ese día alí.

Preséntase o seu libro, de artigos e debuxos enviados desde a cadea nestes últimos anos, e el non vai poder estar. Que menos que cubrir a súa ausencia coa nosa presencia, aínda que a súa ausencia nunca poderá ser cuberta por ninguén mentres el non volte para Loureda. Na presentación haberá música, haberá debuxos, haberá letras e haberá a palabra de todas as persoas que desexen falar, para despois facerllo chegar tamén a el e enviarlle todo o ánimo a dentro da prisión. Estará Séchu Sende, autor do prólogo do libro, estará tamén Valentim Fagim, coordenador da edición, e moito máis.

Vémonos o xoves. Non faltedes! Por favor, avisade a toda a xente, compartide, que ninguén quede sen saber, e que todo o mundo acuda á cita!

Onde mercar o libro? Moi fácil, aquí tedes todas as librarías nas que distribúe Através

E a novidade editorial de Através este outono é…

capa libroOs textos que Carlos Calvo nos entrega neste livro som como estouros de estalitroques, como a vaca-loura diante da escavadora, como as bandeiras que aparecem nos prados, como umha janela recém pintada de azul, como um quero-te na ponta da língua, como umha escola com crianças a falar a nossa língua, como pegadas de urso no Courel. Som palavras criadoras.

O livro de Carlos Calvo deveria estar na mao de muita gente. Nas cafetarias dos liceus, nas bibliotecas públicas, nos albergues de montanha, nas salas públicas dos hospitais, nos salons de cabeleireiros, no revisteiro dos bares. É desses livros que facilitam a vida porque a explicam. Um desses livros onde as cousas se explicam bem, de forma singela, para facilitar as dificuldades. Este livro ajuda, assiste, colabora. Talvez haja quem pense que todos os livros ajudam. Mas o de Carlos Calvo tem a raiz na generosidade de quem participa ativamente com as suas palavras neste projeto que queremos transformar e chamamos Galiza, Mundo, Vida. Porque Carlos Calvo é um ativista. Apesar de que queiram desativá-lo entre as quatro paredes dumha prisom espanhola, Carlos Calvo dinamiza, ativa, participa e transforma.
Sobre Diários. [Prólogo de Sechu Sende]

Título: Diários
Autor: Carlos Calvo Varela
Data de impressão: outubro 2015, 1ª edição
Edita: Através Editora
Descrição: 123 páginas + 20 pág. de desenhos, 19 x 13 cm
Encadernação: brochado
Coleção: Através das Ideias, 8
Capa: Hugo Rios
Diagramação: Matias G. Rodríguez
ISBN: 978-84-87305-97-9
Depósito legal: C 1906-2015
Preço Clube: 11,20 €
Preço Livrarias: 14 €

Por que e que é 25/2015 (A exposición)

Once locais de Santiago, A Coruña, Vigo, Lugo, Ferrol, Ordes e A Laracha acollerán durante todo o mes de setembro unha exposición simultánea de debuxos de Carlos

A mostra recolle parte dos centos de desenhos que enviou en cartas a amigos e familiares nos últimos tres anos desde as sete prisións polas que leva pasado desde que o detiveron en setembro do 2012

Titulada 25/2015, número da última sentenza provisional da Audiencia Nacional que o condenou a 7 anos de cadea, a exposición pretende ademais chamar a atención sobre a situación na que se atopa el, encarcerado a centos de quilómetros da súa casa e pendente do recurso no Tribunal Supremo no que se reclama a súa absolución

DOC013c copy
Once locais acollerán durante todo o mes de setembro unha exposición simultánea de debuxos de Carlos. A mostra poderá verse durante todo o mes en varios puntos da xeografía galega. Así, estará á vez en Ferrol (Ateneo Ferrolán), A Coruña (Centro Social Gomes Gaioso e Ateneo Libertario Xosé Tarrío), Santiago de Compostela (Centro Social Gentalha do Pichel, Taberna O’Pozo, As Dúas S. Cooperativa Galega e Café/Bar Caldeirería 26), Vigo (Bar De Catro a Catro), Lugo (Centro Social Madia Leva), A Laracha (Barbería de Masús) e Ordes (Bar Orellas).

Baixo o nome 25/2015, a exposición recolle parte dos centos de debuxos que, ao longo dos últimos tres anos, Carlos enviou por carta aos seus familiares e amigos desde as sete prisións diferentes polas que leva pasado. Preso actualmente no centro penitenciario de Villabona (Asturias), Carlos, que tamén colabora habitualmente con varios medios de comunicación escribindo desde o cárcere artigos de análise social e política e tamén de carácter filosófico e antropolóxico, está pendente de que se acabe de tramitar o recurso interposto ante o Tribunal Supremo contra a última sentencia da Audiencia Nacional que en abril o condenou provisionalmente a 7 anos de prisión. A defensa de Carlos reclama a súa absolución despois de que fose condenado na sentencia número 25/2015 por uns feitos que lle son totalmente alleos e dos que nin sequera fora acusado e nin se debateron nin mencionaron durante o xuízo.

Todos os debuxos expostos poderán ademais adquirirse. En total, a mostra 25/2015 está formada por 60 debuxos diferentes de Carlos C. Varela e de cada un deles hai dúas copias. Cada un dos 11 espazos participantes na mostra expoñerán un total de dez debuxos, de xeito que ningún dos locais terá nas súas paredes exactamente as mesmas obras que outro.

A construção da masculinidade nos petróglifos

Carlos C. Varela

20150602_000656

Nenos e homens no Labirinto de Mogor

O conjunto artístico dos petroglifos do Grupo Galaico é a principal porta de acesso que temos às ideologías e relações de poder da Pré-História Recente; pedras semantizadas de forma que não representam tanto uma ideia realista da sociedade quanto um desejo de naturalizar uns determinados principios de visão e divisão da mesma, impostos polos grupos dominantes. Analisados da perspetiva de género, os petroglifos de temática naturalista do Grupo Galaico revelam-se como uma grande narração coral da nova masculinidade emergente no III milenio AEC, no contexto dum nascente processo de diferenciação e estratificação social –embora uma série de dispositivos, isso que Pierre Clastres chamou “a sociedade contra o estado”, conseguiu conjurar até os albores da conquista romana a cristalização de formas complexas e hierarquizadas de controlo político. Hodder descreve esta época, entre o Neolítico Final e as primeiras fases da Idade do Bronze, como marcada em muitas partes da Europa Ocidental por uma crise do comunal e o novo ênfase no individualismo masculino, belicoso e caçador. Ou seja, a visão do mundo que consagra o Grupo Galaico, obviando radicalmente o mundo feminino, quotidiano, recoletor e agropastoril. Assim os petroglifos, com as suas panoplias de armamento guerreiro e as cenas de caça de cérvidos hipermasculinizados, veiculam os discursos da nova masculinidade, em uma sociedade menos igualitária e mais violenta que a anterior.

20150602_000537

O homem sexuado da Siribela

Díaz Andreu quijo atalhar estas leituras de género achegando algumas evidencias da participação feminina nos trabalhos cinegéticos, e também denunciando uma asignação apriorística das armas aos homens. Contudo, o registo arqueológico associa claramente as armas, aos varões, e a possível participação das mulheres na caça não resta –a contrário- significancia à sua ausencia nas caçadas dos petroglifos. Por sua parte, a antropóloga Eleanor Leacock tem sinalado como nas sociedades coletoras-caçadoras contemporáneas a divisão sexual do trabalho nem sempre é sinónimo de desigualdade de género, sendo simplesmente um reparto de tarefas que teriam um valor social parecido. Seria a etnografia  feita polos homens ocidentais, atrapados nos seus próprios mitos masculinos, a que axageraria a importância da caça masculina face a recoleção feminina. Mas os petróglifos não foram gravados polos arqueólogos da modernidade patriarcal, senão por pessoas da própria tribo, e as representações da socieade que fam, mui sesgadas quanto ao género, são inteiramente suas.

O CERVO E O HOMEM: MASCULINIDADES RIVAIS

20150602_000744

Hominho com escudo e espadom da Pedra das Ferraduras, Cotobade

Onde os petroglifos mostram uma economia masculina da caça, as evidencias arqueológicas apresentam mais bem uma sociedade agropastorial com recoleção e pouca caça. No NW peninsular cultivavam-se cereais, leguminosas e brássicas; recoletavam-se landras e avelãs; e pastoreava-se um gado do qual até se aproveitavam produtos secundários como os derivados lácteos. Mas toda esta base económica está completamente ausente no Grupo Galaico, a diferença do resto da arte rupestre europeia, onde sim representam cenas agrícolas e ganadeiras, assim como de recoleção de frutos selvagem ou mel. Enfim, concluem Antonio de la Peña Santos e José Manuel Rey García, “nos petroglifos galaicos non parece que se tratase de reflectir a base subsistencial dos grupos humanos que os gravaron”.

Sobrerrepresenta-se a caça e, ainda, uma caça mui concreta: de igual maneira que se invisibiliza a fauna domêstica –abundavam ovicápridos, bóvidos e suídos-, tampouco se representa a caça menor. Só interessa a caça de grandes machos cérvidos, animais detentores nos petroglifos dum valor simbólico mui superior ao seu rendimento económico. Os petroglifos não são ilustrações etológicas realistas, neles aparecem grandes mandas de machos quando, na realidade, estes vivem sós todo o ano, menos quando na época de zelo formam grupos de fêmeas que defendem doutros machos. Há, pois, uma representação masculinizada da realidade e uma hipersexualização dos machos, desenhados com pénis e cornamentas desproporcionados. Igual que sucede com as figuras antropomorfas, as zoomórficas, quando sexuadas, são sempre machos –com a única exceção de fêmeas copulando ou com um macho que lhe olfateia os genitais. As imagens de machos em zelo, como o espetacular cervo que brama laje da Rotea de Mendo  (Campo Lameiro), São representações apoteósicas das masculinidade, e são estes machos, precisamente, os que contra toda lógica aparecem caçados polos homens. Contra toda lógica porque, tal e como explica Richard Bradley, a caça nas sociedades primitivas obedece a uma racionalidade sustentável: abatem-se de preferencia machos jovens ou fêmeas velhas, para garantir a reprodução.

20150602_000622

Cervo ferido dos Carvalhos

Pierre Bourdieu tem explicado as rituais de passagem, em que os moços de muitas culturas se convertem em homens, como uma operação social que, subretudo, marca a diferença entre os moços/homens que passam o rito e as moças/mulheres que não. A caça dos petroglifos, completamente afastada da caça real, parece um mito masculino, a representação de duas masculinidades rivais –a do homem e a do cervo- que, porém, no seu espetacular enfrontamento ocultam a principal oposição estrutural: a que fam entre o mundo masculino representado e o não representado mundo feminino. Os homens caçam grandes cervos machos para exaltar a sua própria virilidade: é uma caça mítica. No célebre estudo de Godelier sobre a produção de Grandes Homens no povo Baruya, a caça revela-se como uma atividade exclusivamente masculina, cuja importância não se justifica polo valor alimentício mas polo seu valor ritual na  produção de chefes e na reprodução da dominação masculina. Será este o caso galaico?

O FETICHISMO DAS ARMAS

20150602_000857

Copula do cervo

Para uma análise das armas dos petroglifos em chave de género é interessante ter em conta uma advertencia prévia de Comendador Rey: nas ilustrações académicas as armas aparecem deitadas longitudinalmente no seu eixo mais longo, como passivas ou “mortas”; mas sobre o terreno foram gravadas com uma conceção dinámica –dir-se-ia que “viril”- e em orientação orgánica, isto é: com a ponta cara riba. Apontado isto, as armas dos petroglifos oferecem dados relevantes se as cotejarmos com os restos arqueológicos de armas reais. Em primeiro lugar, entre o instrumental metálico representado nunca –ou case nunca- aparecem úteis quotidianos como as machadas, senão armas que funcionavam como emblemas masculinos de estatus social: espadas, punhais, alabaudas e escudos. As investigações que quantificaram a desproporção entre as armas reais encontradas e as suas reproduções em pedra, sinalam que enquanto as utilitárias machadas supõem 50% dos úteis encontrados mas não se representam nunca nos petroglifos, as espadas e punhais, sendos ó 20% dos achádegos, são representadas em 50% dos petroglifos de instrumentos.

Em segundo lugar, os petroglifos magnificam as armas da mesma maneira que cornamentas e pénis: o tamaño médio das armas em pedra é 2’56 vezes maior ao das armas reais: proporção superior no caso das espadas: 47 cm de longitude máxima real face 240 cm que atingem em algum petroglifo. Na Pedra das Ferraduras (Cotobade) um homem sustém um escudo e uma espada que é quatro vezes mais grande que ele. Além da desproporção, os petroglifos de armas realizaram-se de preferência em pedras mais verticais do que as escolhidas para outros desenhos. Espetaculares rochas-panóplia como a do Castrinho de Conxo evidenciam a perspectiva privilegiada em que se gravaram os petróglifos de armas.

A associação entre as espadas e o poder masculino é, a pesar das objeções de Díaz Andreu, um fenómeno cultural praticamente universal. Ainda, as espadas costumaram usar-se como símbolo do pénis: lá onde há sociedades patriarcais armadas surgem conceções cinegéticas ou bélicas do sexo. Leroi-Gourhan, pioneiro na interpretação sexual de arte rupestre europeia, admiraria-se de saber que nos cárcere espanhóis dos presos que vão armados com facas artesanais di-se que vão “ampalmados”, e se cortam alguém di-se que lhe abriu um “chocho”. Como nas caçadas rupestres de cervos.

POST SCRIPTUM

Vários milénios depois, os principios homólogos de visão e divisão que articulavam os petróglifos (masculino/feminino, visível/invisível, vertical/horizontal, poder/trabalho, espetáculo/quotidiano…) continuam bem operativos. Mesmo nos movimentos sociais. Uma olhada aos petróglifos digitais avonda para verificá-lo: enquanto as invisíveis mulheres colam cartezes, revisam textos, cozinham em jantares populares e limpam centros sociais, os visíveis homens continuamos a pegar em microfones e faixas de cabeceira. Aliás, envolvemo-nos em grandes desputas por ver que tem um “-ismo” mais grande, embora nunca se corresponda com qualquer prática real. A política como produção de Grandes Homens, enquanto a mulheres sustentam a vida.

BIBLIOGRAFIA

Bradley, R. (1997) Rock Art and the Prehistoria of Atlantic Europe. Signing th Land. Londres/Nova Iorque: Routledge.

Comendador Rey, B. (1997) “Las representaciones de armas y sus correlates mecánicos”. Em: Costas Goberna, F. J. e J. M. Hidalgo Cuñarro (Coords.). Los motivos de fauna y armas en los grabados prehistóricos del continente europeo. Vigo: Asociación Arqueológica Viguesa, PP. 113-130-

Godelier, M. (1986). La producción de Grandes Hombres. Poder y dominación masculina entre los Baruya de Nueva Guinea. Madrid: Akal.

Hodder, I. (1990). The domestication of Europe: Structure and contingency in Neolithic societies. Oxford: Basil Blackwell Ltd.

Leacock, E. (1981). Myths of Male Dominance

Peña Santos, A. de la e J.M.Rey García. (1995). “Gender and Ellas in the Galician Group of rock art”. European Association of Archaecologists, first annual meeting Santiago 1995-Abstracts. Santiago de Compostela, p. 15.

(2001). Petroglifos de Galicia. Oleiros. Vía Láctea.

La parcialidad al descubierto

Benet Salellas i Vilar, Abogado

fotobenetI .- En el periplo judicial de Carlos Calvo Varela, el 2015 empezaba con una buena noticia: el Tribunal Supremo le absolvía del delito de pertenencia a organización terrorista y de esta manera rebajaba de 12 a 7 los años de cumplimiento por su relación con una mochila con explosivos intervenida en Vigo en septiembre del 2012. Uno a uno, el alto tribunal desmentía las consideraciones de la Sección Primera de la Audiencia Nacional presidida por Grande-Marlaska y emmendaba la enésima invención de nuestro ibérico TOP contemporáneo.

II.- La primavera nos llevó a un nuevo juicio, otra vez con Grande-Marlaska y Nicolás Poveda en el tribunal. Esta vez la fiscalía acusaba a Carlos Calvo de colocar personalmente un artefacto explosivo en un cajero automático en octubre del 2011. El único argumento de la acusación residía en un controvertido hallazgo en el lugar de la acción de un fragmento de carné de conducir a nombre de Carlos, carné que él mismo había denunciado haber perdido -entero-. Desde la defensa, convencidos de la falsedad de la acusación, conseguimos probar que el día de los hechos Carlos se encontraba a centenares de kilómetros de Vigo, en la fiesta otoñal por excelencia, San Froilán. La sentencia aceptó esta tesis y se vió obligada a afirmar que no se puede establecer que el acusado fuese la persona que materialmente había colocado el artefacto.

La resolución de la Sala, sin embargo, condenaba a Carlos Calvo por un hecho que no había sido objeto de debate en el juicio (y por tanto tampoco de acusación): entendía probado que él fue quien proporcionó el explosivo a los autores materiales de los hechos. No se sabe quiénes fueron los autores materiales. No se sabe en qué lugar, en qué fecha ni de qué manera Carlos les habría hecho llegar los explosivos -la sentencia no lo dice ni se esfuerza en esbozarlo- pero la responsabilidad por la tenencia del explosivo recae en Carlos Calvo y le conlleva la imposición de siete años más de privación de libertad. Como la vuelta de la primera absolución.

III.-  Más allá de la crueldad de condenar a alguien sin haberlo sometido a juicio, sin haberle preguntado sobre la tenencia (el fiscal obviamente no lo hizo porque ni siquiera le formuló este cargo) y que esta condena pese sobre la espalda del reo y de su entorno hasta que la tumbe -como una célebre estaca- un tribunal superior, el atropello del principio acusatorio nos revela la parcialidad interna del tribunal enjuiciador. Una sentencia como esta deviene una prueba empírica de ello. El Tribunal ha decidido condenar antes del juicio y si no puede hacerlo a partir de la tesis de la acusación pública, improvisa en otra dirección y sienta unos hechos delictivos indiscutidos, no rebatidos y magníficamente fijados, con alevosía, porque el acusado no se podrá defender simplemente porque aparecerán en escena cuando el juico haya acabado. La pérdida de derechos es evidente, pero de donde proviene este convencimiento tan apriorístico del tribunal? Por qué un joven gallego acaba con catorce años en la espalda cuando el Código Penal castiga con seis años una agresión sexual o con diez un homicidio?

IV.- En Alemania en los años 30 y hasta 1945 grandes teóricos del derecho penal (de Mezger a la escuela de Kiel) llegaron a razonar y a plantear a fondo sobre como el derecho penal tenía que ser un derecho de lucha para atrapar el enemigo allí donde tiene su punto de partida, en la voluntad criminal. Al enemigo del nacionalsocialsmo, se referían, claro. Establecieron como regla de interpretación la analogía contra el acusado, derogaron el principio de personalidad y edificaron un monstruo -como pocos- que acabó justificando la pena de muerte para supuestos de “enemistad jurídica”: comunismo, homosexualidad, aborto o ultrages a la raza. Como fundamento estructural se hablaba de la culpabilidad por “conducción de la vida” que presumía que la aplicación de la severidad del derecho penal no tenía porqué provenir de ningún hecho concreto que fuera delito sino que era suficiente ser de una determinada manera para poder ser culpabilizado y castigado.

V.- Dice David Fernández que “en la tradición inquisitorial hispánica hay un instrumento que sintetiza la brutalidad del poder: el terrible acto de fe. Procesión, misa, sermón. Y hoguera. Y cultura del miedo. Y castigo ejemplarizante. Y aviso a navegantes.” Intuyo que la segunda condena, injusta e inmerecida de Carlos va por aquí y huele tanto a hoguera que harta. De una hoguera que quema en Berlín en los años 30 y en Madrid en 2015. Una hoguera que no necesita pruebas y se atiza alimentada de prejuicios, vanidad y mentalidad de orden de la magistratura española.

Pero el ciclo y la lucha, judicial y no judicial, continúa. Después de la primavera llegará el solsticio, y saltaremos como hemos hecho siempre por encima de las hogueras, de esta que ahora parece tan alta y de todo el resto, en una noche llena de estrellas y de aire estival y recuperaremos entonces el sentido de la palabra justicia cuando tendremos a Carlos entre nosotros.

_______________________________________________________________________________________

A parcialidade ao descoberto

I- No périplo judiciário de Carlos Calvo Varela, 2015 começava com umha boa nova: o Tribunal Supremo absolvia-o do delito de pertença a organização terrorista e deste jeito rebaixava de 12 a 7 os anos de cumprimento pola sua relação com umha mochila com explosivos intervida em Vigo em Setembro de 2012. Um a um, o alto tribunal desmentia as considerações da Seção Primeira da Audiência Nacional presidida por Grande-Marlaska e emendava a enésima invenção do nosso ibérico TOP contemporâneo.

II- A Primavera levou-nos a um novo julgamento, de novo com Grande-Marlaska e Nicolás Poveda no tribunal. Desta vez a fiscalia acusava o Carlos Calvo de colocar pessoalmente um artefacto explosivo num caixeiro automático em Outubro de 2011. O único argumento da acusação alicerçava-se num controvertido achado no lugar da ação  dum fragmento de carta de condução a nome do Carlos, documento do que ele próprio denunciara a sua perda -inteiro-. Da defesa, convencidos da falsidade da acusação, demos provado que o dia dos factos Carlos se encontrava a centos de quilómetros de Vigo, na festa do outono por excelência, Sam Froilám. A sentença aceitou esta tese e viu-se obrigada a afirmar que nom se podia estabelecer que o acusado fosse a pessoa que materialmente colocara o artefacto.

A resolução da sala, porém, condenou o Carlos Calvo por um facto que nom fora objecto de debate no julgamento (e por tanto também nom da acusação): entendia provado que ele foi quem forneceu o explosivo aos autores materiais dos factos. Nom se sabe quem fôrom os autores materiais. Nom se sabe em que lugar, em que data nem de que jeito Carlos lhes faria chegar os explosivos -a sentença nom o diz nem se esforça em esboçá-lo- mas a responsabilidade pola possessão do explosivo recai no Carlos Calvo e implica-lhe a imposição de mais sete anos de privação de liberdade. Como a volta da primeira absolvição.

III- Além da crueldade de condenar alguém sem o submeter a julgamento, sem perguntar-lhe pola possessão (o fiscal obviamente nom o fijo porque nem sequer lhe formulou esse cargo) e que esta condena pese sobre as costas do réu e do seu entorno até que a tombe -como umha célebre estaca- um tribunal superior, o atropelo do princípio acusatório revela-nos a parcialidade interna do tribunal julgador. Umha sentença como esta requer dumha prova empírica. O Tribunal decidiu condenar antes do juízo e, se nom o pode fazer a partir da tese da acusação pública, improvisa noutra direcção e senta uns factos delituosos indisputados, nom rebatidos e magnificamente fixados, com aleivosia, porque o acusado nom se vai poder defender simplesmente porque vam aparecer na cena quando o julgamento acabar. A perda de direitos é evidente, mas de onde provém este convencimento tam apriorístico do tribunal? Por que um jovem galego acaba com catorze anos ao lombo quando o Código Penal castiga com seis anos umha agressão sexual ou com dez um homicídio?

IV- Na Alemanha nos anos 30 e até 1945, grandes teóricos do direito penal (de Mezger à escola de Kiel) chegárom a razoar e a propor a fundo sobre como cumpria que o direito penal fosse direito de luita para atrapar o inimigo ali onde tiver o seu ponto de partida, na vontade do criminoso. Ao inimigo do nacional-socialismo se referiam, com certeza. Estabelecêrom como regra de interpretação a analogia contra o acusado, derrogárom o princípio de personalidade e edificárom um monstro -como poucos- que acabou justificando a pena de morte para supostos de “inimizade jurídica”: comunismo, homo-sexualidade, aborto ou aldragens à raça. Como fundamento estrutural falava-se da culpabilidade por “condução da vida” que pressupunha que a aplicação da severidade do direito penal nom tinha porquê provir de nenhum facto concreto que fosse delito senom que avondava com ser dumha determinada maneira para poder ser culpabilizado e castigado.

V- Diz David Fernández que “na tradição inquisitorial hispânica há um instrumento que sintetiza a brutalidade do poder: o terrível acto de fé. Procissom, missa, sermom. E fogueira. A cultura do medo. E castigo exemplarizante. E aviso a navegantes.” Intuo que a segunda condena, injusta e imerecida do Carlos vai por aqui e cheira tanto a fogueira que farta. Dumha fogueira que queima em Berlim nos anos 30 e em Madrid em 2015. Umha fogueira à que nom lhe cumprem provas e se aviva alimentada de preconceitos, vaidade e mentalidade de ordem da magistratura espanhola.

Mas o ciclo de luita, judiciária e nom judiciária, continua. Após a Primavera há chegar o solstício, e choutaremos como figemos sempre por cima da fogueiras, desta que agora parece tam alta e de todo o resto, numha noite ateigada de estrelas e de ar estival e havemos recuperar daquela o sentido da palavra justiça, quando tivermos o Carlos entre nós.

_______________________________________________________________________________________

A parcialidade ao descoberto

I- No periplo xudicial de Carlos Calvo Varela, 2015 comezaba cunha boa nova: o Tribunal Supremo absolvíao do delito de pertenza a organización terrorista e deste xeito rebaixaba de 12 a 7 os anos de cumprimento pola sua relación cunha mochila con explosivos intervida en Vigo en Setembro de 2012. Un a un, o alto tribunal desmentía as consideracións da Sección Primeira da Audiencia Nacional presidida por Grande-Marlaska e emendaba a enésima invención do noso ibérico TOP contemporáneo.

II- A primavera levounos a un novo xuízo, outra vez con Grande-Marlaska e Nicolás Poveda no tribunal. Desta vez a fiscalía acusaba o Carlos Calvo de colocar persoalmente un artefacto explosivo nun caixeiro automático en outubro de 2011. O único argumento da acusación alicerzábase nun controvertido achado no lugar da acción dun fragmento de carné de conducir a nome do Carlos, documento do que el mesmo denunciara a súa perda -enteiro-. Desde a defensa, convencidos da falsidade da acusación, demos probado que o dia dos feitos Carlos se atopaba a centos de quilómetros de Vigo, na festa do outono por excelencia, San Froilán. A sentenza aceptou esta tese e viuse obrigada a afirmar que non se podía estabelecer que o acusado fose a persoa que materialmente colocara o artefacto.

A resolución da sala, porén, condenou o Carlos Calvo por un feito que non fora obxecto de debate no xuízo (e por tanto tampouco da acusación): entendía probado que el foi quen forneceu o explosivo aos autores materiais dos feitos. Non se sabe quen foron os autores materiais. Non se sabe en que lugar, en que data nin de que xeito Carlos lles faría chegar os explosivos -a sentenza non o di nin se esforza en esbozalo- mais a responsabilidade pola posesión do explosivo recae no Carlos Calvo e implícalle a imposición de mais sete anos de privación de liberdade. Como a volta da primeira absolución.

III- Alén da crueldade de condenar a alguén sen o someter a xuízo, sen preguntarlle pola posesión (o fiscal obviamente non o fixo porque nin siquera lle formulou ese cargo) e que esta condena pese sobre as costas do reo e do seu entorno até que a tombe -como unha célebre estaca- un tribunal superior, o atropelo do principio acusatorio revélanos a parcialidade interna do tribunal xulgador. Unha sentenza como esta require dunha proba empírica. O Tribunal decidiu condenar antes do xuízo e, se non o pode facer a partir da tese da acusación pública, improvisa noutra dirección e senta uns factos delitivos indisputados, non rebatidos e magnificamente fixados, con aleivosia, porque o acusado non se vai poder defender simplemente porque van aparecer na escena cando o xuízo acabar. A perda de dereitos é evidente, mais de onde provén este convencemento tan apriorístico do tribunal? Por que un mozo galego acaba con catorce anos ao lombo quando o Código Penal castiga con seis anos unha agresión sexual ou con dez un homicidio?

IV- Na Alemaña nos anos 30 e até 1945, grandes teóricos do dereito penal (de Mezger à escola de Kiel) chegaron a razoar e a propor a fondo sobre como cumpría que o dereito penal fose dereito de loita para atrapar o inimigo alí onde tiver o seu punto de partida, na vontade do criminal. Ao inimigo do nacional-socialismo se referían, abofé. Estabeleceron como regra de interpretación a analoxía contra o acusado, derrogaron o principio de personalidade e edificaron un monstro -como poucos- que acabou xustificando a pena de morte para supostos de “inimizade xurídica”: comunismo, homosexualidade, aborto ou aldraxes á raza. Como fundamento estrutural falábase da culpabilidade por “condución da vida” que presupuña que a aplicación da severidade do dereito penal non tiña porqué provir de ningún feito concreto que fose delito senón que abondaba con ser dunha determinada maneira para poder ser culpabilizado e castigado.

V- Di David Fernández que “na tradición inquisitorial hispánica hai un instrumento que sintetiza a brutalidade do poder: o terríbel acto de fe. Procesión, misa, sermón. E fogueira. A cultura do medo. E castigo exemplarizante. E aviso a navegantes.” Intúo que a segunda condena, inxusta e imerecida do Carlos, vai por aqui e cheira tanto a fogueira que farta. Dunha fogueira que queima en Berlín nos anos 30 e en Madrid en 2015. Unha fogueira á que non lle cómpren probas e se aviva alimentada de prexuízos, vaidade e mentalidade de orde da maxistratura española.

Mais o ciclo de loita, xudicial e non xudicial, continúa. Despois da primavera ha chegar o solsticio, e choutaremos como fixemos sempre por riba das fogueiras, desta que agora semella tan alta e de todo o resto, nunha noite ateigada de estrelas e de ar estival e habemos recuperar daquela o sentido da palabra xustiza, cando tivermos o Carlos entre nós.

Artigo publicado orixinalmente en catalán aquí 

A qochra e a boina: jogar a “ser homem”

Carlos C. Varela

mulherNa sua etapa de etnólogo na Cabília Pierre Bourdieu tomou apontamentos sobre a qochra, jogo praticado polos meninos da Ain Aghbel nos primeiros dias da primavera. Trata-se dum caso exemplar de “exercício estrutural”, mediante o qual, da prática à prática e sem passar polo discurso e a consciência, os meninos interiorizam um mundo simbólico tornado corpo, numa lúdica lição de dominação masculina. Ao começar o jogo o árbitro pregunta uma e outra vez de quem é a  menina –representada pola qochra, uma pelota de cortiço- enquanto nenhum dos jogadores aceita a “paternidade” da mesma, com todas as obrigadas que isso suporia: uma filha debilita o homem. Não fica outro remédio, pois, de rifá-la: o desafortunado ao que lhe toque a qochra tem, à vez, que protegê-la das desonras dos homens e endosar-lha, em condições honoráveis, a outro jogador. “Aquele a quem toca com a sua moca dizendo-lhe “é a tua filha” não tem outra alternativa que declarar-se vencido, à maneira de quem é momentáneamente o obrigado da família, amiúde de rango social inferior, na que tomou esposa”. O “pai” procura casar bem a filha para librar-se dela e reintegrar-se no jogo, mas os pretendentes intentam o heroico rapto, o golpe de virilidade sem contrapartida: o desprestígio do pai através do honor sexual da filha. “Aquele que perde o jogo é excluido do mundo dos homens; anoa e pelota na sua camisa, que é igual que tratá-lo como uma mulher à que se lhe fai uma criança” (1).

Embora duma maneira mais informal, o jogo que faziam os meninos galegos com as suas puchas também é um exemplo de socialização lúdica na lógica da virilidade masculina: quando praticamente todas as crianças levavam boina desde mui pequeninhos, brincavam entre eles a ver quem era capaz de cortar-lhe aos outros o viril rabinho da pucha ao mesmo tempo que protegía o próprio. “Capárom-me a pucha…”, lamentava-se, profundamente humilhado e entre as burlas dos demais, o descuidado ao que cortavam o rabinho da boina (2). A boina, conhecida em algumas paróquias como “o macho” (3), usava-se na medicina popular como símbolo do poder masculino que expulsa o mal feminino do corpo da pessoa doente, numa sorte de exorcismo sexual. Assim por exemplo, botavam fora o mal de olho duma vaca fregando-lhe a pele com uma pucha de homem (4); como explicava uma labrega a Lisón Tolosana: “O outro dia, há mui pouco (década de 1960), não arrancavam os bois. Então o homem quitou-se a gorra, passa-se, dispensando a palabra, polos colhões e depois cruza-se os bois. Passa-se a boina três vezes e fam-se três cruzes… e arrancárom os bois” (5). Mas é no parto, o momento por excelência do domínio do mal feminino, quando mais se empregava “o macho”: para expulsar a placenta com o seu poder masculino (6), ou como defesa simbólica do vulnerável recém nado, que apenas saia da casa com a boina do pai ou do avô posta (7). Ainda, na mesma lógica sexual, a boina servia para esconjurar os encantamentos das sedutoras mouras (8).

 

NOTAS:

  1. Pierre Bourdieu, El sentido práctico, Madrid, Taurus, 1991, p. 127 n. 18
  2. Xavier Castro, Historia da vida cotiá en Galicia, Séculos XIX e XX, Vigo, Nigratrea, 2007, p. 95
  3. Por exemplo na Armenteira (Meis). Antonio Pereira Poza, Ritos de embarazo e parto en Galicia, Sada, Ediciós do Castro, 2001, p. 80
  4. Xosé Ramón Mariño Ferro, La medicina popular interpretada I, Vigo, Xerais, 1985, pp. 168-70. Em Marim também se fazia nas pessoas o remédio de passar-lhes três vezes a boina, conforme apontou Víctor Lis Quibén, La medicina popular en Galicia, Madrid, Akal, 1980, p. 106.
  5. Carmelo Lisón Tolosana, Brujas, estructura social y simbolismo en Galicia, Madrid, Akal, 1980, p. 203. Igualmente, em Combarro, quando uma vaca cai ao chão por malefício “tira-se a gorra, passa-se polas partes íntimas e depois polo lombo da vaca” ().
  6. Fazia-se em sítios como Bueu, Salzeda de Caselas e Ogrobe. Pereira Poza, cit., p. 88.
  7. Na seçom etnográfica da revista Nós (nº 137, III) recolhe-se este costume em Negreira, mas era comum em todo o país.
  8. María del Mar Llinares, Mouros, ánimas, demonios. El imaginario popular gallego, Madrid, Akal, 1990, p. 88.