Cadernos de 2016

Carlos C. Varela

pinchacarneiro

ÍNCLITA ORDEN DEL TOISÓN DE ORO

Enquanto na Galiza estão a deter a independentistas pola sua atividade política, na televisão española anunciam que a infanta Leonor vem de receber o colar da Ínclita Orden del Toisón de Oro. Se quadra havia rir Cunqueiro, quem deixou escrito que a dita Ordem fora “fundada, como sabem, porque um duque de Borgonha encontrou na cama uns pelinhos loiros caidos de certa parte da sua amante, embora depois para a sua emblemática recordasse a aventura de Jasão à procura do Velhocino” (1). E é que ainda vai ter origens certas a mui ordense expressão “cago na cona da reina!”, usada em ocasiões como a de hoje.

(1). Álvaro Cunqueiro, Fábulas y leyendas de la mar, Barcelona, Tusquets, 1986, p. 207.

PORNÓGRAFOS

A pornografía moderna nasce como um género de oposição ao absolutismo, vinculada ao libre pensamento e à heresia, à filosofia natural e às ciencias; mesmo Diderot foi encarcerado por pornógrafo em 1749. Ao parecer a condena da pornografia não tinha tanto a ver com a sua explicitação do erótico –numa forma, aliás, terrivelmente machista- como com a reivindicação da autonomia, do “sexo polo sexo”, desse ámbito que Kant definia como a coincidencia entre fins e médios. A emergência destes espaços de autonomia indignava por igual a esquerda e direita, que também combaterão a aparição de uma vanguarda artística que proclamará a “arte pola arte”. “Não em balde” –diz Jordi Claramonte- “os experimentos musicais do joven Shostakovich foram qualificados unánimemente polo New York Times e polo Pravda, singular gesta, como pornografía”. (1).

Com o golpe fascista uma vaga anti-pornográfica percorreu a Galiza. No 14 de agosto de 1936 apareceu no Boletín Oficial de la Provincia uma ordem do tenente coronel da Guarda Civil Florentino González Vallés, delegado de Ordem Pública na Corunha: “Las bibliotecas de todos los centros clausurados serán eliminadas, procediéndose a la quema de toda la prensa, libros y folletos de propaganda de ideas extremistas, así como la de temas sociales y pronográficos (…)”. Não se salvará da cruzada anti-pornográfica Vicente Díaz Veiga, a.k.a. ‘Carro de Lídia’, figura extraordinária do obreirismo ferrolão (2). Carpinteiro de profissão e emigrante retornado, Carro de Lídia escrevia sobre assuntos rurais na imprensa obreira. Refugiado dos fascistas na Cova de Ponte Prados, entre as praias de Baldovinho e Pantim, é detido pola Guarda Civil em junho de 1937, quando já levava um ano vivendo ali a base de marisco, peixe e verduras. No registro da furna incautam-lhe as seguintes cousas:

-Ferramentas de trabalho.

-O rascunho dum poema contra o exército e a Igreja.

-Um projeto de “Município Livre de Baldovinho”.

-Vários exemplares da revista valenciana Estudios.

Esta última publicação, mui popular entre o movimento libertário galego, e de teses naturistas, foi tomada polo Ilustríssimo Juiz por pornografia. Enviado ao Castelo de S. Felipe, Carro de Lídia livra-se da pena de morte, que lhe é comutada pola prisão perpétua. Antes de sair em liberdade em 1944 passa polos penais de São Sebastião, Burgos e Corunha. Fora dos muros retoma a colaboração com a resistência galega, sendo detido novamente por mor dum delator. Cumprirá novamente condena no cárcere do El Dueso entre 1949 e 1953, tempo que aproveitará para escrever trabalhos como La crucifixión del labriego, autoeditado em 1965.

(1). Jordi Claramonte, Lo que puede un cuerpo. Ensayos de estética modal, militarismo y pornografía, Murcia, Cendeac, 2009, pp. 65-66.

(2). Eliseo Fernández, Obreirismo ferrolán, Vigo, A Nosa Terra, 2005, p. 76 e 159.

O COMUNISMO HÁ CHEGAR DE BICICLETA

O I Congreso Nacional de Ciclistas Vermelhos tivo lugar em Itália num 24 de agosto de 1913. Os obreiros lá reunidos elevaram a bicicleta à categoria de “veículo do povo”, muito antes de que o carro privado aparecesse como primeiro objetivo da emancipação consumista do proletariado. Entre as conclussões do citado congreso pode-se ler: “Nos periodos especiais (eleições, agitações, greves), os ciclistas vermelhos assegurarão os meios rápidos para a comunicação e a correspondencia (…). As bicicletas vermelhas serão a vanguarda da nossa propaganda e o nosso movimento, o meio polo que os nossos afiliados de todas as comarcas permanecerão em contato, em tempos de paz e de guerra”.

Tal foi o caso de José Pérez Sanmartín, latoeiro noiês que morava na vila de Ordes quando o franquismo trouxo o terror. Segundo o informe da Delegación de Orden Público Pérez Sanmartín participou da defesa da república em Ordes “con bombas de mano y en el momento de ser detenido, le fueron ocupadas dos de ellas que tenía ocultas en un monte; además sirvió de agente de enlace entre los grupos de los rojos que tenían cercada la villa de Órdenes; yendo montado en una bicicleta para transmitir las órdenes con mayor rapidez; vino a Santiago y luego marchó a La Coruña, como jefe de grupo, para hacer frente al ejército (…)”.

O ciclista vermelho de Ordes foi fuzilado no cemitério de Boisaca no amencer do 8 de fevereiro de 1937, junto com os seus companheiros que agora são conhecidos como os “11 de Ordes” (1).

(1). Manuel Pazos Gómez, A Guerra silenciada. Mortes violentas na comarca de Ordes 1936-1952, Ordes, A. C. Obradoiro da História, 2011, pp. 50-51.

CICLONAUTAS

Outras das conclussões de aquele congreso italiano de ciclistas vermelhos era a  de que “o desporto é um problema gravíssimo, que desvia a atenção dos obreiros e especialmente dos jovens. Distrai-os do estudo dos problemas sociais e afasta-os das associações políticas”. Tal e como faziam os críticos do “sexo polo sexo” ou da “arte pola arte”, os ciclistas vermelhos condenavam sem paliativos “esses jovens mais desejosos de ler La Gazetta dello Sport que o Avanti!, esses jovens preocupados só por fazer o amor e correr em bicicleta”. O ciclismo polo ciclismo resultava pronográfico. Há que deslocar a olhada para o feminismo se se quer achar uma valorização positiva da bicicleta em si.

Segundo a sufragista Elizabeth Stanton “as mulheres viajamos, pedaleando, cara ao direito de voto”, e para Susan Anthony “a bicicleta fijo mais do que nada e mais do que ninguém pola emancipação das mulheres no mundo” (1). Com a nova viatura podia-se viajar até quatro vezes mais rápido do que caminando, facilitando uma grande autonomia e liberdade de movimentos, superando as fronteiras da cidade burguesa e a sua moral. O seu uso, aliás, justificou que as mulheres se pudessem desprender de prendas-cárcere como o corsé e as saias incômodas, e em nome da liberdade de pedaleio chegou também a liberdade de pensamento: em calças desportivas foi, com certeza, mais fácil imaginar a emancipação feminista (2).

Assim as cousas cada pedalada foi acompanhada pola sua correspondente condena. Já o famoso criminólogo Cesare Lombruso acusara a bicicleta em 1900 de ser “o veículo mais rápido no camino à delinquência, porque a paixão polo pedal arrasta ao roubo, à estafa e ao atraco”; ainda, os seus colegas descreviam na Literary Digest a doentia “cara de ciclista”. O principal reproche anti-ciclista vinha, como sempre, do lado dos escudeiros da moral sexual. Num dos seus últimos contos Neira Vilas recorda a condena, em plena missa, que levou uma moça por passear de bibicleta excitando o crego (3). Em La moralidad pública y su evolución, um livro editado em 1944 polo franquismo de forma reservada, só para as autoridades do regime, temia-se pola 2perjudicial influencia que la generalización del uso de la bicicleta ha producido en orden a las excursiones lejos de la ciudad” (4), que as parelhas novas aproveitavam para terem algo de intimidade. Mas a bicicleta não só conduzia rápidamente aos territórios do pecado: era um pecado em si. A fricção da entreperna feminina com o silhim preocupou, e muito, a toda a congregação da polícia sexual, formada por médicos, sacerdotes e demais gente de ordem. Tão indecoroso roze, prognosticavam os científicos, havia producir histérias, infertilidades e abortos, até deixar as mulheres loucas polo prazer de pedalear.

(1). Tomei estas citas de Eduardo Galeano, “Alarma: ¡Bicicletas!”, Mujeres, Madrid, Siglo XXI, 2015. Seguro que se podem encontrar muitas mais referências em Biciosos, o libro de Pedro Bravo.

(2). Philipp Blom, Años de vértigo. Cultura y cambio en Occidente, 1900-1914.

(3). Xosé Neira Vilas, Romaría de historias, Vigo, Galaxia, 2015, p. 65.

(4). La moralidad pública y su evolución, Madrid, edição reservada, 1944, p. 83. Cit. Em Carmen Martín Gante, Usos amorosos de la post-guerra española, Barcelona, Círculo de Lectores, 1988, p. 235.

AS FRICATRIZES DA AMAIA

Os rapazes quando saem de “caralhada” falam de ‘meter’, ‘pinchar’, ‘cravar’, etc., enquanto as moças –polo menos as da Amaia- falam mais bem de ‘frotar’ explicitando as diferentes mitologias sexuais que articulam os desejos de homens e mulheres. O temor à frotação com o silhim de bici é só um capítulo mais da longa história masculinista do temor à fricção feminina, isto é: à autonomia sexual das mulheres. O silhim e o clítoris tornavam prescindíveis os homens, numa forma de prazer que Freud aginha rebaixará a “imaduro”. Quando a começos do s. XVII Thomas Bartholin revisa as Institutiones anatomicae, propõe chamar ao clítoris “despreço dos homens”, verbalizando um pesadelo masculino que pairará caladamente tras os intentos europeios de masificar a cliteridectomia nos séculos posteriores, uma empresa pretensamente científica. Nesse período a literatura médica –mais tarde ampliada pola etnográfica- enche-se de monstruosas gravuras e fotografias de mulheres dotadas de clítores prodigiosos, capazes de intimidar o mais orgulhoso pénis. Fala-se então do tribadismo, prática já documentada polo granadino Al-Hassan ibn Muhamad al Wassan, mais conhecido em Europa como Leão o Africano. Na sua Cosmografia e geografia de África, publicada póstumamente em 1550 como Da descrição de África, fala das fricatrizes de Fez, uma sorte de bruxas possuidas –segundo eles- por yinns, e que gozavam fregando-se entre elas, inconscientes precursoras das ciclistas.

AS GRANDES DESCOBERTAS

1492: Cristóvão Colombo dá início a uma tradição europeia consistente em que homens, igualmente europeios, imponham os seus próprios nomes aos territórios conquistados no novo continente, visto como uma mulher que seducir, dominar e civilizar.

1559: Um anatomista italiano de igual nome que o almirante, Realdo Colombo, reivindica-se descobridor de um novo territorio no continente feminino: o clítoris. “Como ninguém observara antes esta projeção e o seu conteúdo, se se me permite dar nome ao que eu mesmo descobri, proponho baptizá-lo como “amor ou dozura de Vénus”. Seguirão-no na empresa outros como Gabriel Falopio, descobridor de outra ilha feminina que pujo no mapa com o seu nome: “as trompas de Falópio”.

De Colómbia à trompa de Falopio, da lógica sexual do colonialismo à lógica colonial da anatomía, do continente a dominar como uma mulher à mulher a conhecer como um territorio de conquista… Assim foi que as mulheres nahuas passaram de ter zacapilli e zacapilcualt a não ter uma difuminada “mi parte”.

FRAGMENTOS DUM TRATADO DE DEMONOLOGIA (I)

X.R.Mariño Ferro nota uma diferença fundamental entre a representação do demo e das bruxas que se fazem os inquisitores e a cultura popular: os primeiros apresentam uma maldade absoluta, sema restas, enquanto os relatos populares matizam este mal teológico com contos de diabos mais bem parvos, que os astutos labregos sabem vencer (1). É o caso, por exemplo, dos demos que pretendem engañar o camponês no moinho e que, sem decatar-se, rematam trabalhando para o labrego. Creio que havia de gostar muito destas histórias esse grande revolucionário de incógnito que foi G.K. Chesterton, pois tal e como deixou escrito, “os contos de fadas são verídicos não só porque nos explicam que os dragões existem, senão também porque nos explicam que se podem vencer”.

O TRACTOR DE BENDILHÓ

Na cena final do Bienvenido Mister Marshall um tractor paraquedista pousa suavemente numa leira, cumprindo o sonho americano dum concelho espanhol de após-guerra. A tragicomedia de Berlanga representava um povo afundido na miséria, completamente despolitizado polo shock da violência fascista, e cuja única esperança era a chegada do salvador americano, preparada de uma maneira mágica que fai recordar os cultos cargo de algumas ilhas do Pacífico, cujos habitantes dispunham de “pistas de aterragem” para a chegada do deus da Coca Cola. Mas nem sempre o povo foi ese conjunto desarticulado de sofrimentos, despojado de toda potência.

Na Primavera de 1936 os cinquenta e três vecinhos de Bendilhó (Quiroga) repartirom as terras do cura –fugido após receber uns anónimos (1)- entre todas as casas, converterom a reitoral no local do seu sindicato, e solicitaron à CNT colaboração para mercar um tractor para os trabalhos coletivos da aldeia, eregida em Comuna Agrícola Libertária (2). Deu-lhes apoio o Sindicato da Construção da Corunha, que propujo ao Comité Regional Galaico que todos os federados contribuissem para a compra do tractor de Bendilhó por prorrata, projeto cuja materialização só impediu o golpe militar, quando já juntaram vinte mil pesetas (3). Sem aguardarem por nenhum Mister Marshall, Estatuto de Autonomia nem Presidente da República. Sem cultos cargo à espera de messias eleitorais.

(1). Estes anónimos fôrom um género que contou com magníficos cultivadores, como demonstra este de 1788: “(…) párroco de Camanzo, párroco de los demonios, tu acabas ós probes, que lle vendes o que tén para comer; tu non nos vestes, como fai o de Piloño, tu non lles das ferrados de grao…; tu acabas ós probes dos fregueses, cos escribanos queres acabalos de todo… Pois si non despachas ós escribanos, e si non dis a misa pola mañá ás sete, e se non mudas de vida, juramos a Dios que has de amencer queimado…; tamén te decimos que te habemos de queimar as medas e os palleiros… Non che firmamos porque non queremos i outros porque non sabemos…”. Cit. Em C. Burgo López, Un dominio monástico femenino en la Edad Moderna. El monasterio benedictino de San Payo de Antealtares, tese doutoral, Santiago de Compostela, 1985, II, p. 985.

(2). “Los pequeños grandes problemas: Los campesinos de Bendilló (Lugo), desean ensayar el Comunismo Libertario”, Solidaridad nº 43, Corunha, 18 de abril de 1936.

(3). Conta-o Dionísio Pereira em A CNT na Galicia 1922-1936, Briom, Laiovento, 1994, p. 167.

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E a novidade editorial de Através este outono é…

capa libroOs textos que Carlos Calvo nos entrega neste livro som como estouros de estalitroques, como a vaca-loura diante da escavadora, como as bandeiras que aparecem nos prados, como umha janela recém pintada de azul, como um quero-te na ponta da língua, como umha escola com crianças a falar a nossa língua, como pegadas de urso no Courel. Som palavras criadoras.

O livro de Carlos Calvo deveria estar na mao de muita gente. Nas cafetarias dos liceus, nas bibliotecas públicas, nos albergues de montanha, nas salas públicas dos hospitais, nos salons de cabeleireiros, no revisteiro dos bares. É desses livros que facilitam a vida porque a explicam. Um desses livros onde as cousas se explicam bem, de forma singela, para facilitar as dificuldades. Este livro ajuda, assiste, colabora. Talvez haja quem pense que todos os livros ajudam. Mas o de Carlos Calvo tem a raiz na generosidade de quem participa ativamente com as suas palavras neste projeto que queremos transformar e chamamos Galiza, Mundo, Vida. Porque Carlos Calvo é um ativista. Apesar de que queiram desativá-lo entre as quatro paredes dumha prisom espanhola, Carlos Calvo dinamiza, ativa, participa e transforma.
Sobre Diários. [Prólogo de Sechu Sende]

Título: Diários
Autor: Carlos Calvo Varela
Data de impressão: outubro 2015, 1ª edição
Edita: Através Editora
Descrição: 123 páginas + 20 pág. de desenhos, 19 x 13 cm
Encadernação: brochado
Coleção: Através das Ideias, 8
Capa: Hugo Rios
Diagramação: Matias G. Rodríguez
ISBN: 978-84-87305-97-9
Depósito legal: C 1906-2015
Preço Clube: 11,20 €
Preço Livrarias: 14 €

Derecho de emergencia en Galiza, más allá de la Inquisición

fotobenetNicolau Eimeric, nacido en Girona el 1334, Inquisidor General de la Corona de Aragón fue autor de uno de los tratados más famosos sobre el oficio inquisitorial y, en la reflexión sobre el valor de las delaciones de los cómplices del acusado, descartaba de forma taxativa su peso como única prueba en el proceso penal. Desgraciadamente el derecho de emergencia construido por algunos Estados pretendidamente democráticos en el s. XX ha rebajado este esmirriado listón probatorio hasta el punto que en nombre de la lucha antiterorrista se ha validado la posibilidad de aceptar como única y solitaria prueba de una condena la declaración de un arrepentido. La Italia de los 80 y 90 del siglo pasado fue el auténtico campo de entrenamiento de esta excepción procesal que se encuentra vetada como tal en otros países en los que se exige siempre que haya confirmación de lo que explica el delator más allá de su propia declaración y que la misma se haya filtrado con un interrogatorio cruzado con aquel que es acusado, como pasa por ejemplo en la tradición anglosajona.

La Audiencia Nacional española ha condenado este mes de mayo del 2014 el joven Carlos Calvo Varela a doce años de privación de libertad por los delitos de pertenencia a organización terrorista (Resistencia Galega) y tenencia de explosivos al servicio de dicha organización con la única prueba de la confesión en juicio del otro acusado, Xurxo Rodríguez, quien había llegado previamente a un acuerdo con la fiscalía de rebajarle la pena a la mitad, tal como ha asumido el Tribunal, a cambio de modificar el sentido de sus declaraciones, que siempre habían sido de exculpación de Carlos Calvo, y convertirlas en incriminatorias. La sentencia, redactada por Fernando Grande-Marlaska y con el voto en contra de uno de los tres magistrados que formaban el tribunal, se sitúa así en la vanguardia del derecho de emergencia contemporáneo, incluso más allá de las soluciones desesperadas de los tribunales italianos en los años de plomo, y la verdad es que los que lo vivimos en primera línea nos derriba todos los esquemas.

A alguien le pueden ofrecer una rebaja de la pena a la mitad (a Xurxo Rodríguez le han impuesto seis años de privación de libertad) a cambio de cambiar sus declaraciones. Esta persona declara en el juicio negándose a contestar las preguntas del abogado del otro acusado (y por lo tanto extirpando cualquier hipótesis de contradicción de la prueba como exigiría el principio de justicia más elemental). Y todo esto, sin más, pasa a imprimirse en una sentencia con pena propia de un delito de homicidio. Esto sí que resulta un auténtico atentado contra el sentido común y contra la inocencia de alguien que, como Carlos Calvo, siempre ha negado tener ningún tipo de relación con organizaciones de tipo terrorista o similar y de quien los propios agentes actuantes en el juicio pudieron acusar como máximo de formar parte del universo del independentismo gallego.

Me cuesta mucho no pensar en la Inquisición y de ahí la cita del principio. El sufrimiento que se provocaba a los justiciables por el Santo Oficio hacia que los ciudadanos fueran capaces de aceptar como propia la más abominable de las herejías. El sistema de pactos con la fiscalía de la Audiencia Nacional hoy puede hacer declarar a cualquier hereje el más terrible de los crímenes en relación a cualquier otro acusado, a cambio de no sufrir el tormento de una pena alargada y de los premios previstos en la legislación antiterrorista para los arrepentidos colaboradores. En este caso el sufrimiento no es físico, pero la coacción al derecho a la libre declaración es la misma. Y lo más grave, la inocencia de aquel contra el cual se gira la delación no sabe como hacerlo para sobrevivir a ello. Carlos Calvo, nos vemos en el Tribunal Supremo.

Benet Salellas i Vilar, abogado 

Ave branca

Manuel Meixide.

                                                              Para o Carlos, com agarimo.

  Tu és a liberdade.

Ninguém pode cortar

as asas da tua consciência,

só tu podes deixar de voar.

Carlos, tu és a liberdade.

Desde a terra observo humilde

o voo circular da tua ave branca,

as minhas asas encolhidas

desafiam agora o fio do vento.

Voa ave branca,

amostra-nos o caminho,

tu és a liberdade.

Só tu podes deixar de voar.

lua

Papo-rúvio

DI UMHA LENDA GALEGA QUE FOI O PAPO-RÚVIO QUEM TROUXO DESDE O SOL O LUME PARA OS HOMENS E MULHERES DA TERRA, PARA QUE SE AQUEÇAM E SE CUIDEM. POR ISSO TEM O PEITO RÚVIO, AO QUEIMAR-SE DURANTE A VIAGEM COM AS FAÍSCAS.

TAMBÉM ÀS PRISONS CHEGAM PAPO-RÚVIOS LEVAR O SOL DA ALEGRIA.

A TODOS ELES, QUE LHES LEVAM AOS PRESOS TODO O SOL E TODO O CALOR.

(Obrigad@s ao companheiro de Carlos en Topas, autor deste desenho pintado em madeira sobre teia, e a Carlos, por este presente)

paporrubio

Os delegados do aparato

tecedores

 

(Fragmento de “A delegaçom e o fetichismo político”, comunicaçom apresentada por Bourdieu perante a Associaçom de Estudantes Protestantes de Paris, em 7 de junho de 1983, e publicada em ‘Actes de la recherche en sciences sociales’ 52-53, junho de 1984)

Pugem ate aqui o acento na relaçom entre mandantes e mandatários. Falta-me agora a relaçom entre o corpo de mandatários, o aparato, que tem os seus interesses e, como diz Weber, as suas “tendências próprias”, especialmente a tendência de autoperpetuaçom, e os mandatários particulares. Quando o corpo de mandatários, o corpo sacerdotal, o partido, etc., afirma as suas tendências próprias, os interesses do aparato aventajam os interesses dos mandatários particulares que, por este facto, deixam de serem responsáveis perante os seus mandantes para volverem-se responsáveis perante o aparato: desde entom, já nom podem compreender-se mais as propriedades e as práticas dos mandatários sem passar por um conhecimento do aparato.

A lei fundamental dos aparatos burocráticos di que o aparato dea todo (e especialmente o poder sobre o aparato) àqueles que lhe dam todo e esperam todo porque nom tenhem nada ou nom som nada fora dele; em termos mais brutais, o aparato adere-se mais aos que aderem mais a ele porque som eles aos que controla melhor. Zinoviev, que compreendeu mui bem estas cousas, e com razom, mas que fica encerrado em juízos de valor, di: “O princípio do êxito de Staline reside no facto de que é alguem extraordinariamente mediocre”  . Roça o enunciado da lei. Sempre a propósito do ‘apparatchik’ (homem influinte do partido), fala de “umha força extraordinariamente insignificante e, por isso, invencível” (p. 307). Som mui belas fórmulas, mas um pouco falsas, porque a intençom polêmica, que lhe dá o seu encanto, impede tomar o dado tal qual é (o que nom significa aceitá-lo). A indignaçom moral nom pode compreender que tenham êxito no aparato aqueles que a instituiçom carismática percebe como os mais parvos, os mais ordinários, aqueles que nom tenhem nengum valor próprio. Na realidade, tenhem êxito nom porque som os mais ordinários senom porque nom tenhem nada de extraordinário, nada fora do aparato, nada que os autorize a tomar-se liberdades com respeito ao aparato, a fazer-se os listos.

Há, pois, umha sorte de solidariedade estrutural, nom accidental, entre os aparatos e certas categorias de pessoas, definidas sobretodo negativamente, como nom tendo nengumha das propriedades que é interessante possuir no momento considerado no campo respeitivo. Em termos mais neutros, dirá-se que os aparatos consagram pessoas seguras. Mas seguras por que? Porque nom tenhem nada polo qual podam opor-se ao aparato. É assim que no Partido Comunista Francês dos anos 50 como na China da ‘revoluçom cultural’ os jovens servírom muito de guardiáns simbólicos, de cans guardiáns. Ora bem, os jovens nom representam somentes o entusiasmo, a ingenuidade, a conviçom, todo o que se associa sem pensar muito nisso com a juventude; do ponto de vista do meu modelo, som também aqueles que nom tenhem nada; que som os recém chegados, os que chegam ao cargo sem capital. E, do ponto de vista do apararto, som carne de canom para combater os velhos que, ao começar a ter capital, seja polo partido, seja por eles próprios, se serve desse capital para questionar o partido. O que nom tem nada é um incondicional; tenta tanto menos para opor quanto que o aparato lhe dá muito, na medida da sua incondicionalidade, e do seu nada. É assim que nos anos 50 tal ou qual inteletual de 25 anos podia ter ex officio, por delegaçom do aparato, públicos que unicamente os inteletuais mais consagrados podia conseguir, mas, eles, se podo exprimir-me assim, a conta de autor.

Esta espécie de lei de bronze dos aparatos duplica-se noutro processo que recordarei mui rapidamente e que chamaria ‘efeito buró’. Refero-me à análise que fai Marc Ferro do processo de bolxevizaçom. Nos soviets de bairro, os comités de factoria, é dizer nos grupos espontáneos do começo da revoluçom russa, estava todo o mundo, a gente falava, etc. E depois, desde que se designava um permanente, as pessoas começavam a ir menos. Com a institucionalizaçom, encarnada polo permanente e o buró, todo se inverte: o buró tende a monopolizar o poder e o número dos participantes nas assembleias diminui; o buró convoca as assembleias e os participantes servem por umha parte para manifestar a representatividade dos representantes e por outra para ratificar as suas decissons. Os permanentes começam a reprochar aos membros ordinários nom concorrer bastante às assembleias que os reduzem a essas funçons.

Este processo de acumulaçom de poder em maos dos mandatários é umha sorte de realizaçom histórica do que descreve o modelo teórico do processo de delegaçom. As pessoas estám ali, falam. Depois vem o permanente e as pessoas vam menos. E depois há um buró, que começa a desenvolver umha competência específica, umha linguagem própria. (Poderia-se recordar aqui o desenvolvimento da burocracia da investigaçom: estám os investigadores, estám os administradores científicos, que se presume que servem aos investigadores. Os investigadores nom compreendem a sua linguagem burocrática -”coberta de investigaçom”, “prioridade”, etc.- e, nos tempos que correm tecnocrático-democrático-”demanda social”. De súpeto, nom vam mais e denuncia-se o seu ausentismo. Mas algum investigadores ficam, os que tenhem tempo. E sabemos a continuaçom). O permanente, como o seu nome indica, é o que consagra todo o seu tempo ao que, para outros, é umha atividade secundária, ou, polo menos, de tempo parcial. Tem tempo, e tem tempo para ele. Está em condiçons de dissolver na duraçom burocrática, na repetiçom devoradora de tempo e energia, todos os golpes de força proféticos, é dizer, discontínuos. É assim que os mandatários concentram um certo poder, desenvolvem umha ideologia específica, fundada na inversom paradoxal da relaçom com os mandantes; dos quais se condena o ausentismo, a incompetência, a indiferença aos interesses coletivos, sem ver que som o produto da concentraçom do poder em maos dos permanentes. O sonho de todos os permanentes é um aparato sem base, sem fieis, sem militantes… Eles tenhem a permanência contra a discontinuidade; tenhem a competência específica, a linguagem própria, a dos seus pequenos assuntos (Gramsci di isto em algumha parte: “temos debates bizantinos, conflitos de tendências, de correntes, dos quais ninguém compreende nada”). A continuaçom, há umha tecnologia social específica: estas pessoas tornam-se profissionais da manipulaçom da única situaçom que poderia plantejar-lhes problemas, é dizer a confrontaçom com os seus mandantes. Sabem manipular as assembleias gerais, transformar os votos em aclamaçons, etc. E aliás tenhem a lógica social para eles porque, seria ainda demasiado longo de demonstrar, basta-lhes com nom fazer nada para que as cousas marchem no sentido do seu interesse, e o seu poder reside amiúde na eleiçom, entrópica, de nom fazer, de nom eleger.

Terá-se compreendido que o fenómeno central é esta sorte de inversom de táboa de valores que permite, em última instância, converter o oportunismo em devoçom militante: há postos, privilégios, pessoas que os tomam; longe de sentir-se culpável por ter servidos aos seus interesses, dirám que nom tomam esses postos por eles, senom para o partido ou para a Causa, assim como invocarám, para conservá-los, a regra que quer que nom se abandone um posto conquistado. E chegarám ainda a descrever como abstencionismo ou dissidência culpável a reserva ética perante a tomada de poder.

Há umha sorte de autoconsagraçom do reparto, umha teodicieia do aparato. O aparato tem sempre razom (e a autocrítica dos indivíduos fornece-lhe um último recurso contra o questionamento do aparato em tanto que tal). A inversom da táboa de valores, com o exalçamento jacobino do político e do sacerdócio político, fai que a alienaçom política que enunciava no começo deixe de ser percebida e que, ao contrário a visom sacerdotal da política se imponha, até o ponto de deitar na culpabilidade àqueles que nom entram nos jogos políticos . Dito de outro jeito, interiorizou-se tam fortemente a representaçom segundo a qual o facto de nom ser militante, de nom estar comprometido na política, era umha espécie de falta da que era necessário eternamente redimir-se, que a última revoluçom política, a revoluçom contra o clero político, e contra a usurpaçom que está inscrita em estado potencial na delegaçom, fica sempre por fazer.

Traduçom de Carlos Calvo Varela. Topas, abril de 2013.

Pra ti, “Carlos Bra”

cortello

 

… nom é um limiar!

 

Hoje, na Cova Ribeira, no meu cochovelho,

fixem um sanghradoiro no meu peito.

Pingha a pingha boto a minha genreira fora.

Escoito o som da augha, o estranho cantar

do Renlo no silêncio da noite e as folhas das

arvres que venteam na derradeira lua o

remate do estio.

Quixera falar de tantas cousas, mas a minha

cachola nom está aqui. Está longe, longe da

minha terra. Num cortelho sem portas sem

jinelos, num mar de terróns telheiros onde a

liberdade tem a cor da palha.

Ceibo este besbelho que alouminho na

minha mam, no riu, coa esperança de que na

sua metamorfose em cavalinho do demo te

vaia buscar, e ti a canchaperna, a cavalo del,

voltes pra Loureda.

Pra ti, “Carlos Bra”, Carlos Calvo Varela.

Cochiquí.

(O blog O Cortelho da Laracha feito livro de presente para Carlos)

Somos e estamos

sereaConhecim a Carlos entre as cores dum debuxo. Nom vim de forma direta a cor dos seus olhos mais sim sua mirada sobre as árvores, as pessoas, a música, a força da terra, a sensaçom dum páxaro no ar, a destreza dumha muinheira ou a ledícia dum sol que assoma tras um rio. Nom toquei suas mãos mais sei como som as curvaturas das suas letras, os “a” redondos ou os “m” com umha mui ligeira onda, quase sendo umha linha, caminhando por riba das pautas dum caderno. Tampouco participei com ele em debates de taberna mais escrevemos ideias e partilhamos pensamentos que acostados em papéis viajam em caixas e bolsas por outras terras baixo um fólio dobrado que leva debuxada a cara dum homem que nunca vimos pero que é real, que nom entende a nossa fala mais que governa em nós.

A primeira linha da minha primeira carta, a primeira linha da sua primeira carta, falamos à nossa maneira da empatia popular. Escrevo ogalhá de um golpe telepático che pudesse contar tudo o que quero expressar e ele resposta “depois de médio ano encerrado, acredito firmemente no poder “das ondas telepáticas do povo”. Continuo com a pergunta de como nos roubam palavras da nossa vida, por exemplo “jornalismo”, onde trabalho sem ter emprego, e ele resposta “passa-me como com palavras como democracia, uns dias penso que vale a pena luitar polo seu significado verdadeiro, e outros que como já está tam manipulado e deformado é melhor tirar ao lixo com a palavra e ficar com o significado”. Sorrio quando leio em ele que “nom se compra o que tampouco se vende” e imagino seu sorriso quando vê escrita a frase também em mim. Ler ilusom, esperança, povo, fé, força, amor… sem dúvida debuxa os melhores sorrisos porque som as ideias quem erguem os músculos da faciana, som  sorrisos empáticos, os que dim que seguimos sendo pessoas no abrigo do primeiro plural, somos nós.

Nós somos todas as pessoas que choram, todas as que rim e todas as que berram. Somos a resistência das presas políticas, somos a luita das excluídas nos direitos reprodutivos e somos o direito da soberania dos povos, nós somos as dispersadas por políticas de gênero e de ideologia, somos as negras e as fusiladas nos cruzes de caminhos, somos a terra explorada, somos a memória histórica, as assassinadas por ser mulher, somos as trabalhadoras mais achouchadas polo sistema, as que lhes roubam a capacidade de luitar tendo como arma a miséria (cultural/econômica/social…), somos o carvalho, somos as raposas e os raposos, somos todos os sexos, gêneros e orientaçons inclassificáveis na dicotomia, nós somos a muinheira e somos Carvalho Calero, somos a história das avoas e os avós, nós somos Chelo Rodríguez e Moncho Reboiras, somos as mortas que seguem vivas e as vivas que seguem mortas. O primeiro plural é a igualdade da diferença, a uniom das plurais, o laço da solidariedade que nos une e o que nos faz fortes, somos nós. Criamos com atos cativos a mudança do nosso mundo próximo, e fazemo-nos a nós mesmas, distinguimos às pessoas entre as cores dum debuxo, vemo-nos sem ter que olhar e sem tocar conseguimo-nos sentir. Um povo é esse que luita por todas as pessoas que o componhem.

Dalgum modo, na mesma forma em que afastado e arrancado de nós, Carlos continua sendo o amigo, o filho, o amante, o mestre, o companheiro e aluno, Galiza segue a ser umha terra de sementes e um povo com gesto de se erguer. Estamos juntas e de volta, estamos à carga, e se esbaramos ou levamos golpes, soportarémo-lo porque já temos a consciência, já sabemos que nos imos pôr em pé.

Ana Viqueira, jornalista e ativista feminista