Poema para uma estrela

(Para um desenho do Carlos Calvo)

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Uma estrela verde pintada
numa folha de quadrinhos escolares
com cheiro a bosque e a liberdade

As palavras: borboletas soltas pela folha
como frutas silvestres orvalhadas
ou como se chovesse lágrimas

A estrela vermelha já nem se atreve
roubam de nós o céu e as mãos da vida
roubam de nós a voz da esperança
concharousia
Sugam-nos a seiva que tanto precisamos
para cuspi-la no chão sem sequer saborear

Com arrogante desprezo por sermos
Matam-nos sem sentir como dói a nossa dor

Mas nós acharemos a cura para sua mordida
acharemos o antídoto para seu veneno

Nos temos a nossa Estrela verde
para semear na Terra a esperança

 Concha Rousia 26,1,14

A noite continua

concharousiaHá algum tempo que me resgato com poesia. O sofrimento humano actual, por muitas e diversas razões, é imenso. Pior ainda é por mor desse sofrimento ser infringido de forma desnecessária polo poder central que nos arranca uns dos outros, nos parte, nos desmembra a cada vez que separa um filho da Galiza para o reter com garras alheias e estrangeiras, para o reter longe do coração e da mornura.

Se digo que estamos desprotegidos não digo verdade, pois a realidade necessitaria de palavras muito mais reais, mais cruas, mais duras como elas são. Por isso é que eu me resgato com poesia, disfarçando com sentidos novos as palavras, para ir tolerando tanta dor, tanta dor injusta, tanta frustração e tanta raiva… Raiva que querem que bebamos como lágrimas que caíssem para dentro do nosso corpo.

Um observador agudo, descolonizado, sem a visão condicionada polo que o poder central leva instalado nas nossas mentes, não se deixaria enganar por esta aparente justiça. Como não o enganariam com o jeito de ‘fazer’ justiça com os escravos, legalmente escravo noutra época, a forma de sermos escravos vai mudando.

Há algum tempo que me resgato com poesia, me refugio nela para sobreviver à dor imensa de ver como esfarelam devagarinho o nosso mundo milenar. A Carlos e aos outros companheiros e companheiras roubados do seu povo, da sua pátria, da sua língua, especialmente em maio, em que teriam que estar aqui conosco, cantando, reivindicando, festejando o nosso ser colectivo, para eles vai este meu poema, que escrevi há algum tempo, mas que se adapta como uma luva a hoje. Vai com o meu melhor abraço, e com meu desejo de que dalguma forma eles também se resgatem com estes versos:

A Noite continua

É noite, e meus irmãos andam perdidos
meus irmãos e irmãs andam longe de casa
dessa casa nossa que não tem portas
nem tem saídas, nem sequer tem janelas
para que eu respire…

É noite e o inimigo fechou fora de nós a nossa Estrela
já não podemos cantar sem saber onde é acima
onde é abaixo e para onde iria a voz do nosso canto
não adianta cantarmos neste mar de pedra
que fixa nossa barca a um sem-rumo certo

Hoje poderia perguntar-me tantas cousas…
poderia perguntar-me se valeu a pena ter vivido
agora que sinto como se nunca tivesse nascido
acaso podemos dizer que a flor que nunca viu o sol
que não tem cor, que não tem cheiro… Nasceu?
Não me importo com que os morcegos a sintam
eu falo do que sente a rosa…
do que sente ela sem sair da noite 
sem saber o que é o dia
o que é o voar das borboletas
eu falo de jardins condenados a morar nas mãos
de jardineiros cegos que detestam flores

Mas a rosa também é um conceito, eu sei
basta que alguém a conceber e ela existe

Hoje necessito acreditar cegamente nisso
sei que não posso, como tantas outras vezes
que também não pude e depois me ergui
porque eu tenho que continuar minha espera
tenho que manter o lume acesso noite fora
eu sei que meus irmãos ainda podem voltar
porque eles seguem fora, seguem perdidos

Manterei o lume aceso para seu regresso
juntarei mais e mais e mais lenha
eu ficarei sempre a esperar por eles

É noite e meus irmãos andam perdidos…

Concha Rousia. Escritora e psicoterapeuta