“ALMAS DA NOITE, FILHOS DO ROCK’N’ROLL”. MÚSICA E ANTAGONISMO SOCIAL NA COMARCA DE ORDES

Carlos C. Varela

a Tabeaio

“O primeiro em pronunciar o ritmo dos movimentos

de rebelión é, em toda a parte, a mesma coluna

sonora; que aos movimentos nom lhes serve só de fundo,

senom de isca: porque antes de nada é ao redor da

música como se acende aquela temperatura ardente e

esse espírito de rebelión que alimenta depois o

imaginário político e cultural dos movimentos”.

Franco Bolelli, A revoluçom cultural da música

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A antropóloga Marisol de la Cadena adverte que “na medida em que justamente nom todas as relaçons de antagonismo encontram a sua expressom através da política, nom toda sociedade organiza tampouco os antagonismos políticamente” (1). Tal era até há bem pouco o caso da comarca de Ordes, onde desde há décadas a música proporcionou à mocidade disidente algo que nom lhe dava a ‘política’: um campo de batalha para a rebeldia, umha escola de antagonismo. Sem muitos ‘-ismos’ nem microidentidades partidárias à mao, sem um nível de autoorganizaçom que si havia em comarcas semelhantes, como na da Estrada, na de Ordes e radicalidade expressou-se antes por ritmos do que por discursos. Simplesmente eras do rock (e mais tarde tamén do hip-hop) ou da música comecial, do Badulaque ou de LP45, da diversom canônica do entruido homologado ou da greve humana permanente; “os engominados de discoteca contra os melenudos dos porros”, em certeira explicaçom dum amigo.

É difícil saber quando começou todo. Numha visita carcerária do Astrónomo de Queixas, o nosso galego na rádio libre Hala Bedi, emocionamo-nos com a ideia de fazer un aarquivo destas biografias sonoras. Há modelos mui interessantes, como a história oral dos Diplomáticos de Monte Alto, que fijo o Rodri Suárez (2); ou Tropikales y radicales. Experiencias alternativas y luchas autónomas en Euskal Herria [1985-1990], livro de Jtxo Estebaranz (3) que fazia memória das rebeldías vascas, intercalando bandas sonoras e muito material gráfico da época: cartazes de concertos, fanzines, carátolas de discos… Por onde começar?

Os mitos fundacionais recordam a chegada de Xurxo Souto a Cerzeda para traer a boa nova da eletrificaçom das guitarras e o rock em galego. Os indígenas parece ser que lhe contestarom que chegava tarde, que ali já se começou a fazer isso a finais dos ’70, num cortelho de Queixas onde se ensaiava prévia saca de gado à eira. Outros situam o antes e depois no festival punk ‘Desordes en Ordes’, com grupos como Kruze de Kables, que tamén deu numha maqueta. Foi lá polos últimos anos da década de ’80. Ainda se poderia –sempre se pode- retroceder mais à procura dos precursores da revolta musical: eis a efervescencia cultural da II República, com nomes próprios com o diretor da Banda de Ordes Higinio Cambeses, detido pola sua solidaridade com os presos políticos; ou Pedro do Serrador, clarinetista e à postre guerrilheiro anti-franquista. Seja como for, a música foi-se configurando na comarca como a principal escola de dissidência.

Em Cerzeda, o primeiro foco irradiador, o rock traia ecos da resistência das Encrovas, sem a qual nom se podem entender muitas cousas. Entre Zënzar –primeiro chamados Mördor- e o Festival de Rock organizado pola A.C. Lucerna formou-se umha canteira de longa duraçom da qual nom param de sair novas bandas; rapazes que com a ilusom de tocar no festival davam os primeiros passos, e com o tempo calhárom em algumhas das propostas mais consolidadas do panorama galego, como Machina no metal ou Gendebeat, o home-orquestra moderno que inventou o beat box en galego. O núcleo musical, aliás, vertebrava as intervençons noutros ámbitos: defesa da língua e cultura popular, Entruido, anti-caciquismo e, sobretudo, defesa da Terra contra Sogama e a “merda que vem no tren”. Ainda, o trabalho de Bocixa e do Astrónomo na RTV de Cerzeda desbordava amplamente as margens que se lhe supunham a umm meio de comunicaçom local e institucional.

No outro foco, a capital da comarca, os movimentos sociais tiveram mais tradiçom. Nos anos da chamada Transiçom a A. C. O Terruño (1975-1984) foi um movimento vizinhal e cultural que realmente mereceu a qualificaçom, hoje tam gastada, “de massas”. Nela auto-organizou-se a vizinhança que estava a sair da longa noite de pedra, abordárom problemas urgentes como o dos direitos das mulheres, publicarom um boletim informativo mui crítico e organizavam a Feira da Cultura Popular Galega, com grandes momentos como a representaçom teatral de Vidal Bolaño à luz do carburo. O movimento foi esmorecendo ao ser reabsorbido polo nascente sistema de partidos, que visava monopolizar a política e encaminhá-la exclusivamente à via institucional. Os principais dirigentes foram coaptados como quadros destes partidos e o que antes se fazia desde a auto-organizaçom autónoma passou a ser delegado em concelheiros. A seguinte vaga movilizadora importante foi a nucleada pola Associaçom Reintegracionista de Ordes (ARO), primeiro grupo reintegracionista de base em todo o país, cujo rádio de açom ia para além do ativismo linguïstico, e que tamén tivo as suas publicaçons periódicas, onde se ecoam outras lutas como a sindical na fábrica de Viriato. De maneira parecida a como sucederá com O Terruño, chegou um momento em que para criar e manter o BNG local as suas ativistas tiverom que concentrar na política de partidos os seus esforços, e a ARO nom tivo continuidade. Ou polo menos como tal, porque a AC. Obradoiro da História, senlheira no movimento da recuperaçom da memória histórica, e o seu alma mater Manolo Paços, venhem de algum jeito de aquela experiência, que tamén deixou herdançasa em cousas como na opçom reintegracionista de bandas como O Chícharo Psicótico.

Histórias cíclicas de movimentos autónomos recuperados na forma-partido… O que nom houvo maneira de recuperar, afortunadamente, foi o rock, expressom em Ordes de algo parecido ao que Hobsbawn chamou “rebeldes primitivos”. Umha das bandas de mais calado na comarca foi Kastomä, saída do ecosistema da tribo rururbana dos “heavies de merelhe”, aldeia convertida em bairro polo crescimento urbanístico onde se podiam ver graffitis tam sugerentes como um enorme “Motorhëad” com letras caligráficas, no muro dumha horta. Noutro bairro smirrural, o Paraiso, um desporto minoritário como o hóquei patins colhia tintes contra-culturais, ainda que só fosse porque desafiava a monocultura futebolística e fortalecia a comunidade. Na década de ’90 podiam-se ver cenas tam curiosas como um grupo de rapazes a jogar ao hóquei no meio da rua, com dous contentores deitados a modo de balizas. Os encontros de liga, especialmente os derbies contra o Liceo da Corunha, eran como esses desportos da luta de classes que Owen Jones bota em falta no moderno futebol inglês (4). O pavilhom do Castelao vibrava de aquelas com cânticos contra o clube corunhês, nom tanto por ser um dos mehores do mundo quanto por ser emblema de burguesia corunhesa. “Ellos dicen: ‘Son gamberros’/pero lo nuestro es política”, cantava La Polla Records. Ainda, por volta do hóquei os siareiros autoeditavam um fanzine de muito mérito, que mesmo incluia umha seçom de banda desenhada obra de Gonzalo.

O boom da movida ordense, que converteu a vila em centro de ócio noturno, precipitou a apariçom de locais alternativos à monotemática oferta de música disco e latina (na altura irreapropriável para o protesto social). No meio de tam ingente ecosistema de locais noturnos, mantinham o pulso pubs legendários como o Badulaque, com rock ao vivo, e mesmo locais reggae como o Selassie. Se a juventude contestatária ordense nom tinha muito ‘-ismo’ rebelde entre o qual escolher, si tinha polo menos um amplo abano de ritmos rebeldes. Nom acabavam de calhar formas organizadas de ativismo juvenil, mais lá dumha intermitente Galiza Nova, mas um ambiente antagónico flotava por toda a parte; como nas paredes dum pub onde se podia ver um autocolante bem curioso: a reproduçom fac-similiar dum comunicado da IV Agrupaçom do Exército Guerrilheiro da Galiza reivindicando unha açom que tivera lugar na comarca sesenta anos atrás. E ao lado, se calhar, umha foto de Hendrix. Isso era Ordes, umha guerrilha difusa sempre na folha do gume, entre o niilismo e a rebeldia.

Com a chegada da nova língua franca do ghetto, o hip-hop, Ordes renovou o seu antagonismo social e de passo –mais lá da piscadela primeira de Os Resentidos- inventou o rap em galego. Cousas estranhas numha vila onde os semáforos conviviam com o gado: muros que berravam, com um novo cuidado estético (5), cousas como “Fraga, vai trabalhar a Canárias!”, muito antes de que o graffiti se torna-se umha arte legítima e vías de museificaçom; intercámbios de revistas de arte urbana nos tempos pré-internautas; e um grupo de rapazes que vinham às passantias de Ana com cassettes gravados com algo nunca ouvido, que recordava vagamente às regueifas dos velhos e que depois reelaboravam com sotaque galego num cortelho de Penelas.

Há muito por cartografar nesta revolta contagiosa. Som já centos de concertos e de letras, um trono metálico que se extende polo proto-centro social O Tiçom de Messia; os Ith, no eixo roqueiro que tira para Xanceda e Teixeiro; o Meigas Fora de Poulo e a Revoltosa de Santa Cruz, incluindo o igualmente proto-centro social de Montaos na Pontragha; o pub Non Sei da Silva; o Festival das Flores e o rock (e cinema!) série B de Sigüeiro; o mais joven Som de Traço… Plus de bruit!

NOTAS:

  1. Marisol de la Cadena, “Política indígena: un análisis más allá de “la política””, WAN-ejournal, nº4, abril 2008.
  2. Rodri Suárez, Non temos medo. Historia oral de Os Diplomáticos de Monte Alto, Nicetrip ediçom autogerida, 2014.
  3. Jtxo Estebaranz, Tropikales y radicales. Experiencias alternativas y luchas autónomas en Euskal Herria [1985-1990], Bilbau, Gatazkaren aztarnak, 2007.
  4. Owen Jones, The Demonization of the Working Class, N/E, 2011.
  5. E é que o graffiti já tinha praticantes em Ordes na década de 1940, quando os colaboradores do Exército Guerrilheiro, Luciano Concheiro e Manuel Astray, encheram a Avenida Alfonso Senra e o mesmíssimo quartel da Guarda Civil de consignas anti-fascistas. Conta-o um dos protagonistas em: Manuel Astray Rivas, Síndrome del 36. La IV Agrupación del Ejército Guerrillero de Galicia, Sada, Ediciós do Castro, 1992.

(José A. Regueiro, ‘Tabe’, baixista da banda de rock galego Zënzar, faleceu hoxe despois de padecer unha grave enfermidade desde hai seis meses. Adicado a el)

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